Hoje na Imprensa

Estado faz inventário das cidades fantasmas

O Globo, 18/jul

Elas até estão no mapa. Mas no do Rio de Janeiro no período colonial. Grandes cidades até meados do século XIX, há cerca de 150 anos Iguassu (hoje em Nova Iguaçu), Vila da Estrela (perdida em Magé) e Vila Santo Antônio de Sá (em Mangaratiba) desapareceram de vista. São João Marcos, que ficava onde hoje é o município de Rio Claro, ainda resistiu mais: foi dinamitada e alagada em 1940, no primeiro governo de Getúlio Vargas, para aumentar a capacidade da represa de Ribeirão das Lajes. Tesouros perdidos, as ruínas dessas cidades fantasmas estão sendo inventariadas pelo Instituto Estadual de Patrimônio Cultural (Inepac). A intenção é restaurá-las para inseri-las num mapa mais atual: o do turismo no estado.

- Essas cidades foram grandes núcleos, portas para o sertão do Brasil que, por uma mudança de eixo econômico, desapareceram - explica Marcus Monteiro, diretor do Inepac. - Elas integravam rotas alternativas do ouro que vinha de Minas ou produziam café e entraram em decadência após a inauguração da primeira estrada de ferro do Brasil, em 1854.

Cidades portuárias e entrepostos comerciais, com o esvaziamento econômico essas antigas metrópoles perderam parte das populações por males como cólera e malária. Sem manutenção, os portos se tornaram focos de doenças. Vila da Estrela chegou a ser retratada por mestres como Johann Moritz Rugendas e Jean-Baptiste Debret. Já Iguassu não se destacou como produtora de café, mas a revenda e o transporte do produto levaram à sua ascensão a vila, em 1833. De ambas, como de São João Marcos, só restaram pedaços de construções. O que não é pouca coisa.

- As ruínas do convento de São Boaventura, na Vila Santo Antônio de Sá, são as mais ricas e majestosas do estado. Assemelham-se às das missões, no Sul do país - garante Monteiro. - Estas já são tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e pelo Inepac.

O tombamento não é garantia de conservação. Fundada em 1739, São João Marcos foi alçada à condição de cidade em 1890 e tombada pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 1937. Três anos depois, Vargas autorizou a inundação. Já a velha Iguassu é tombada pelo Inepac desde 1989, mas...

- O povo daqui roubou adornos da igreja e do cemitério. O local, além de macumbódromo, tornou-se ponto de desova - lamenta o historiador Antônio Lacerda.

Uma vila que foi salva apenas por Rugendas

Da paisagem de Vila da Estrela imortalizada por Rugendas, resta quase nada. Só as ruínas da Igreja Nossa Senhora da Estrela e do Armazém das Três Portas, cobertas de mato, isoladas a dez quilômetros da Rodovia Washington Luiz. Ao fundo, onde havia um grande porto às margens do Rio Inhomirim, agora há o chamado Portinho. Lá, três pescadores se destacam no hoje imenso pasto desabitado.

- Meus bisavós tinham fazenda aqui e contavam que era uma grande cidade, que recebia várias embarcações. Agora aparecem só barquinhos de pesca, como nós, atrás de bagres e traíras - conta o aposentado Luiz Carlos Gomes, criado ali.

Município fundado em 1848 e extinto em 1892, Vila da Estrela passou a pertencer ao então distrito de Magé. Nos velhos tempos, chegou a ter oito hotéis, onde já estiveram Dom João VI e Dom Pedro I. Na época, o município integrava uma rota alternativa de ouro e café, o Caminho de Proença. Mas a estrada de ferro de Mauá (1854) e uma epidemia de cólera (1855) ajudaram a esvaziá-lo. O golpe de misericórdia foi em 1897, quando foi rezada a última missa na igreja, erguida em 1650.

O que resta dos tijolos das construções vem sendo roubado, assim como no passado aconteceu ao bastão de prata com a estrela, ao bebê e a um dos anjos da imagem de Nossa Senhora da Estrela.

O distrito que sumiu levado pelas águas
 
No século XIX, Rio Claro era distrito de São João Marcos. A cidade foi berço da expansão do Vale do Paraíba e viveu o apogeu da produção cafeeira e o fim do ciclo do ouro. Com a abolição, o trem e o declínio da produção de café, a situação se inverteu. Os 18 mil habitantes que havia no fim do século XIX caíram para apenas 7.400 na década de 20. Quando seu centro histórico foi tombado pela Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan), em 19 de maio de 1939, São João Marcos já havia passado a distrito de Rio Claro, reunindo pouco mais de 5 mil habitantes.

Foi tudo por água abaixo: um ano depois, a cidade que a Sphan considerava um raro exemplo intacto de conjunto de arquitetura colonial, deixou de ser monumento nacional por decreto assinado pelo então presidente Vargas, em 1940. Na seqüência, foi dinamitada para ser inundada e aumentar a capacidade da represa de Ribeirão das Lages. Só que grande parte da cidade onde nasceu o ex-prefeito Pereira Passos jamais foi alagada. Se não tivesse sido demolida na ocasião, a Igreja Matriz, por exemplo, teria sido salva, já que não foi encoberta.

Das ruas largas com calçamento de pedras, da cidade entre Rio Claro e Mangaratiba, sobram ruínas como uma das colunas que formavam o arco da entrada e o cemitério, que ficava na parte alta. A malária matou os moradores que teimaram em ficar. Hoje a nova São João Marcos é bairro de Mangaratiba e está a 20 quilômetros da antiga, em Rio Claro.

Em Iguassu, só escombros e desolação

Às margens da Estrada Zumbi dos Palmares, na serra do Tinguá, em Nova Iguaçu, as ruínas da velha Iguassu agonizam entre restos de despachos de macumba e eventuais cadáveres abandonados. O campanário, último resquício da antiga igreja de Nossa Senhora da Piedade, serve de abrigo para a população de rua. Confundido com um cemitério de escravos, o terreno em frente - com túmulos que já foram ornados com mármore de Carrara para receber comendadores - cheira a carniça e tem oferendas que incluem crânios humanos.

Perto dali, em uma área invadida, está o antigo porto do Iguassu, hoje uma escada de pedra que dá para uma grande poça d'água sem ligação com o rio Iguaçu, assoreado e passando a muitos quilômetros de distância. O conjunto, que forma o sítio histórico de Iguassu, é tombado pelo Inepac.

- Agora estamos tentando o tombamento pela prefeitura de Nova Iguaçu, que está mais perto e talvez possa ajudar - diz o historiador Antônio Lacerda, do Arquivo Diocesano.

Iguassu, que deu origem a Nova Iguaçu, desapareceu com o advento da estrada de ferro, instalada no vilarejo de Maxambomba em 1859, onde surgiu o atual município. Localizada à margem direita do rio, numa planície circundada de pequenos morros, a Igreja de Nossa Senhora da Piedade teve sua origem na capela que o alferes José Dias de Araújo construiu em sua terra, em 1699. Em 1704, Garcia Rodrigues Paes abre o Caminho Novo das minas do ouro, favorecendo os povoados do Recôncavo da Guanabara. Situada na rota do ouro, Iguassu prosperou e em 1719 foi elevada a categoria de freguesia. Foco de malária, tifo e cólera na segunda metade do século XIX, não resistiu.

Beleza longe do público por ordem judicial

Com uma imponência comparada à de São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul, as ruínas do Convento de São Boaventura, na antiga Vila Santo Antônio de Sá, são tombadas pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, antiga Sphan, desde 1980. A dez quilômetros de Itaboraí, numa fazenda no distrito de Porto das Caixas, o local não pode ser visitado desde março por decisão judicial.

- O Iphan não gostou de as ruínas terem servido de locação para produções de TV. Por isso, as visitas estão proibidas. Nem a prefeitura de Itaboraí pode entrar - explica o administrador da Fazenda Macacu, Antônio Monerá, mostrando um documento do Ministério Público assinado pelo promotor Oyama Mignon de Castro, que restringe a visitação aos órgãos de preservação.

Praticamente desconhecida hoje, a fachada do quinto mosteiro franciscano mais antigo do Brasil, de 1660, era destaque na freguesia de Santo Antônio de Sá, a segunda a ser constituída no Rio.

A troca do transporte fluvial pelo ferroviário e o declínio econômico da cidade contribuíram para a decadência do convento, a partir de 1829. Nesse ano, uma epidemia de malária provocou debandada dos moradores. Em 1835, o convento foi cedido à comunidade como casa de caridade. Em 1922, já em ruínas, foi vendido à Ordem Beneditina e, desde então passou por vários donos até virar patrimônio histórico.



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