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Guardiã da memória

O Globo, Roberto Kaz, 15/jul

Organizadora do dossiê que fez a Unesco dar ao Rio o título de Patrimônio Mundial, a superintendente do Iphan fala sobre grades, tombamentos e bens imateriais

No dia 1º deste mês, o Rio ganhou, da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), o título de Patrimônio Mundial como paisagem cultural urbana.

Floresta da Tijuca, Aterro do Flamengo, Pão de Açúcar e Praia de Copacabana foram os locais que, de acordo com o documento enviado à entidade internacional, justificaram a honraria. Na prática, isso significa dizer que, a partir de agora, esses sítios, embora cariocas, passam a ser, também, de "posse" da humanidade.

O prefeito Eduardo Paes assim resumiu, há três semanas:

- A base da declaração é um pouco a seguinte: agora vocês não são mais donos sozinhos desse patrimônio, ele pertence à humanidade. E os guardiões dessas belezas são vocês.

Um desses "guardiões" é a arquiteta Cristina Lodi, superintendente no Rio do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, autarquia federal responsável por cuidar dos bens culturais brasileiros).

Coube a ela - em parceria com membros da prefeitura, do governo estadual, da Fundação Roberto Marinho e da Associação de Empreendedores Amigos da Unesco - elaborar o dossiê enviado à Unesco, pleiteando o título. 0 trabalho, que teve um custo de aproximadamente R$ 700 mil, mapeou os pontos da cidade que mereciam ser contemplados na categoria "paisagem cultural urbana". Cristina foi encarregada de coordenar a equipe.

Nesta conversa com a Revista O GLOBO, ocorrida na sede do Iphan, no Centro, ela fala sobre o título dado ao Rio, sobre novas ações do Iphan na cidade (como o registro imaterial da Feira de São Cristóvão e da Saara) e sobre velhos problemas urbanos, como o excesso de grades nas praças públicas.

- Não suporto grades. Elas desagregam - declarou.

REVISTA O GLOBO: Por que o Rio foi inscrito na categoria "paisagem cultural"? CRISTINA LODI: Essa categoria foi criada pela Unesco em 1992, para locais de natureza que já exibem a intervenção do homem. Mas, desde então, as inscrições na categoria "paisagem cultural" foram ligadas ao campo. Premiaram os vinhedos da França e a região do café na Colômbia, por exemplo. Não havia paisagem cultural urbana inscrita. O Rio é a primeira.

- O que significa a cidade ser reconhecida como paisagem cultural?

- O documento de candidatura não trata apenas dos bens naturais. O que ele diz é que nessa relação entre homem e natureza, no Rio, criou-se uma cultura própria. O Parque do Flamengo e a orla de Copacabana nos impuseram um modo de vida. Isso se reflete na música do Tom Jobim, na poesia do Drummond, nos jardins do Burle Marx, na literatura do Machado de Assis. Isso que foi declarado patrimônio mundial.

- Que conseqüência objetiva isso traz para a cidade?

- Traz um desafio com a gestão dessas áreas. O território passa a ter vários gestores. Além disso, a inscrição não diz respeito apenas aos locais preser¬vados, mas ao entorno deles. Vamos estudar ter mais controle nas mudanças que possam vir a ocorrer nessas áreas. Por fim, o título de patrimônio mundial traz um incremento no turismo qualificado.

Há excesso de bens tombados na cidade? Não sei se me sentiria confortável em criticar alguns tombamentos. Mas quando a prefeitura tomba um patrimônio imaterial, ela não se preocupa com a salvaguarda, então fica um pouco gratuito. Você declara e não cuida. Hoje saiu no Diário Oficial que o prefeito declarou como patrimônio imaterial todas as torcidas de times de futebol.

Registro de patrimônio imaterial é marketing?

Não. Quando o Iphan registra um bem imaterial, ele faz uma série de atividades para a preservação da memória do patrimônio que está sendo registrado. Agora estamos registrando a Feira de São Cristóvão e a Saara. O pedido partiu deles, em ambos os casos.

Há necessidade de registrar a Saara, que é tão forte comercialmente?

E a ameaça dos chineses? Lojas de libaneses e portugueses que eram tradicionais estão sendo substituídas cada vez mais por produtos do Paraguai ou da China. Esse registro parte de um desejo legítimo de culturas que querem preservar sua memória. Você discute o assunto, traz figuras da área, coleta informações. Isso provoca uma reafirmação dessa identidade.

O tombamento pode ser prejudicial?

Não é o tombamento que engessa e que faz com que um bem não seja usado. Tem que ir atrás da utilização responsável e sustentável do patrimônio. E hoje em dia estamos mais abertos a novos usos dos bens, até econômico. O Automóvel Clube, por exemplo, foi deixado abandonado. O custo de restauração ficou muito caro. E ele é difícil de ser transformado em outra coisa. Não foi o tombamento que definiu a ruína dele. Foi a falta de uso. Tem que ter uma parceria público-privada nesses casos.

Mudando de assunto, você acha que há um excesso de grades nas praças da cidade?

- Eu não suporto grades, mas algumas são tombadas. A Praça Paris, por exemplo, poderia viver sem as grades. Já o Passeio Público, não, porque elas fazem parte do projeto inicial dele. Coordenei a revitalização da Praça Tiradentes. A gente percebeu que a praça, que deveria ser um elemento agregador, estava desagregando, pelas grades. Era um lugar sectarizado por uma suposta ideia de segurança, e não acho que a grade traz segurança. Mas esse movimento de retirada das grades está crescendo. No início do ano, o município retirou as da Praça Saens Pena, na Tijuca.


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