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Um presente para o passado

O Globo, Célia Costa, 20/jul

Patrimônio arquitetônico da cidade, Villa Aymoré, na Glória, passa por reformas e deve ser alugada para empresas estrangeiras

Tombada pelo município e incluída na Área de Proteção do Ambiente Cultural (Apac) da Glória e do Catete desde 2005, a Villa Aymoré está sendo restaurada para abrigar um empreendimento comercial. Construído entre 1908 e 1910, o conjunto de dez casas está em péssimas condições. As obras devem ficar prontas no início de 2014. Durante as escavações do terreno da vila e de seu entorno, já foram encontradas diversas peças de porcelana, escovas de dentes feitas de ossos e outros objetos de diferentes épocas. Como determina a prefeitura, arqueólogos vasculham o subsolo da propriedade e vão avaliar a importância histórica dos achados.

A degradação da vila, que virou uma espécie de cortiço nos últimos anos, era tão grave que em 2008 uma das casas desabou. Em 2009, três executivos, liderados por Gustavo Felizzola, da Landmark Properties, compraram a Aymoré, que ocupa uma área de nove mil metros quadrados. A intenção do trio é restaurar os imóveis, que têm 250 metros quadrados cada um, e construir mais quatro mil metros quadrados de escritórios, que serão alugados, principalmente, para empresas estrangeiras.

O subsecretário municipal de Patrimônio, Washington Fajardo, explicou que o conjunto arquitetônico na Glória é tão importante que até justificou a criação de um projeto de lei, ainda em tramitação na Câmara, permitindo a flexibilização de uso de imóveis preservados ou tombados. Para Fajardo, a Villa Aymoré é um caso de sucesso de recuperação de patrimônio cultural.

- A Glória tem inúmeros atrativos para a instalação de escritórios comerciais e características melhores que as de muitos bairros nobres da Zona Sul. Além de uma boa infraestrutura de transportes públicos, há ainda a proximidade do aeroporto - avaliou Gustavo Felizzola.

Mais do que recuperar a beleza da construção, o grupo de empreendedores quer contar a história daquela região, desde a época do Império. Está sendo produzido um documentário sobre a vila e também serão realizadas exposições e visitas. Bem ao lado do conjunto arquitetônico, ainda existem as fundações do casarão de Maria Benedita de Castro Canto e Melo, a baronesa de Sorocaba, uma das amantes de dom Pedro I.

- Toda essa atmosfera dá um charme especial ao local, o que acaba atraindo investidores. As pessoas vão preferir se instalar numa área que tem uma história peculiar - acrescentou Felizzola.

À frente das escavações arqueológicas na vila, estão Jackeline de Macedo e Ana Cristina Sampaio, as mesmas pesquisadoras que em maio descobriram objetos antigos durante a construção de um prédio de seis andares no Leblon. Graças ao achado, a história da ocupação do bairro nobre da Zona Sul poderá ser revista. Foram encontrados fragmentos de peças dos séculos XVIII e XIX.

Agora, as duas arqueólogas analisam os objetos encontrados na Glória, que poderão revelar mais detalhes da época do Império. A baronesa de Sorocaba, por exemplo, que vivia num suntuoso solar, era irmã de Domitília de Castro do Canto e Melo, a marquesa de Santos, que também era amante do imperador.

A história que se conhece é que dom Pedro I dizia que ia rezar no Outeiro da Glória, que fica próximo, quando na verdade seguia em direção ao solar, para visitar a baronesa. Ela teve um filho com o imperador. Ao saber da existência do menino, a marquesa de Santos teria planejado um atentado contra a irmã, que foi malsucedido.


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