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De volta ao passado em poucas passadas

O Globo, Simone Candida, 09/set

Rica arquitetura da Avenida Rio Branco, em estilo eclético, proporciona viagem no tempo

Uma caminhada pela Avenida Rio Branco, no Centro do Rio, pode ser uma viagem ao passado se o pedestre souber olhar para os lugares certos. Inaugurada em 15 de novembro de 1905 como um dos marcos da remodelação da cidade capitaneada pelo prefeito Pereira Passos, a então Avenida Central nasceu sob a inspiração de Paris: com 1.800 metros de extensão, 33 metros de largura, pequenos abrigos para transeuntes, e prédios em estilo eclético. Passados mais de 100 anos, a via mudou completamente e pode-se contar nos dedos das mãos os edifícios que restaram destes primeiros tempos. Até 1910, eram 86 prédios; hoje, só sobraram 10. Desses, seis são públicos e tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac): o Banco Central, a Biblioteca Nacional, a própria sede do Iphan, o Museu Nacional de Belas Artes, o Teatro Municipal e o Centro Cultural da Justiça Federal, antiga sede do Supremo Tribunal Federal. Também são tombados pelo estado o pr
Prédio do Clube Naval e os imóveis 88 e 155 da avenida, que pertencem, respectivamente, à Ordem Terceira de Nossa Senhora da Conceição e Boa Morte e à Santa Casa da Misericórdia.

Para o professor de geografia da Uerj, João Baptista Ferreira de Mello, coordenador dos Roteiros Geográficos do Rio, apesar de não ter sido preservada em seu conjunto, a avenida dá aula de história:

- A Avenida Central era nossa Paris: uma via ligando o mar ao mar, pois não havia os aterros do Flamengo e do porto, com prédios belíssimos em estilo eclético francês.

No sábado, a partir das 15h, ele guiará cariocas e turistas no roteiro "Avenida Rio Branco de Ponta a Ponta." O passeio começa no nº 1, marco dos edifícios pós-modernistas. As inscrições, gratuitas, são pelo site www.roteirosdorio.com.

Da Belle Époque aos traços modernistas

À época de sua abertura, todas as construções da Avenida Rio Branco (inaugurada com 30 prédios acabados e 85 ainda sendo erguidos) obedeceram às regras de um concurso de fachadas que previa prédios parecidos com os da capital francesa. No número 30, fica o prédio da antiga Caixa de Amortização, hoje Banco Central, construído junto com a avenida e inaugurado em 1906. O interior tem uma rotunda decorada por painéis de mosaicos dourados. Na fachada, colunas neoclássicas em mármore de Carrara e janelas decoradas com guirlandas.

A lista de edificações remanescentes inclui ainda o prédio do número 19, onde está o Hotel São Bento, na Praça Mauá. Projetado pelo arquiteto Vicente de Carvalho e inaugurado em 1906, fica na esquina das ruas Dom Gerardo e São Bento e está degradado.

Traçado sofreu desvio

Cruzando a Avenida Presidente Vargas, o roteiro traz mais exemplos da época em que a Rio Branco tinha ares parisienses: a construção do número 88, entre a Igreja de Nossa Senhora da Conceição e Boa Morte e a avenida, de 1908, já abrigou uma lotérica e o Bar Simpatia, fechado em 1990. No local, há uma loja de roupas masculinas. O prédio tem uma torre gótica, grades em estilo art-nouveau e desenhos de cerâmica vitrificada. A história explica como ainda está ali.

- Na época da construção da avenida, a Igreja da Nossa Senhora da Conceição e Boa Morte, de 1738, não foi demolida porque o engenheiro Paulo de Frontin, da Comissão Construtora, devoto da santa, desviou um pouco o traçado - conta João Baptista.

Outro imóvel do início do século XX fica entre os números 155 e 159 e pertence à Santa Casa de Misericórdia. No lado esquerdo, aina é possível ver características da Belle Époque, enquanto, no direito, há uma nova fachada de linhas retas. Na esquina com a Avenida Almirante Barroso fica o Clube Naval, inaugurado em 1910, do arquiteto Tomazzo Galdenze, que também assina o Teatro Colón de Buenos Aires. Ao longo dos anos, o prédio teve a estrutura interna alterada e ganhou mais dois pavimentos em 1924.

Erros levam à reflexão

Para o arquiteto e urbanista Nireu Cavalcanti, a história da construção e posterior descaracterização da antiga Avenida Central deveria gerar uma reflexão sobre o futuro das intervenções urbanas da cidade:

- Para que a avenida fosse construída, houve desapropriações e muitas perdas. No lugar, foi construída a mais bela avenida do Brasil, mas ela não chegou a ter 50 anos de vida quando acabou descaracterizada porque não havia sido protegida - observa Nireu, citando como exemplo de perda o Palácio Monroe.

O consultor Carlos Fernando Andrade, ex-superintendente do Iphan no Rio, destaca o tombamento tardio e parcial dos prédios da Rio Branco:

- Na época, o único órgão de proteção do patrimônio era o Iphan, cujos arquitetos não apreciavam prédios ecléticos, preferiam o modernismo. Há um parecer de Lúcio Costa pedindo o tombamento de apenas quatro prédios, o Teatro Municipal, o Museu de Belas Artes, a Biblioteca Nacional e o prédio do Supremo.


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Matéria impressa a partir do site da Ademi Rio [http://www.ademi.org.br]