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Os caçadores da cidade que não se quer ver perdida

O Globo, Paula Autran, 05/mai

Amadores das causas arquitetônicas tomam conta do Rio nas ruas e na rede

Algumas histórias, antigas, estão só no baú da memória. O ano era 1978, e o pneumologista Ronaldo Morais, hoje com 68 anos, atendia na Policlínica, no Castelo, Centro do Rio. Até pouco tempo antes, ele passava pela placa "Castelo" sem saber que um dia existira o Morro do Castelo na cidade. Descobrir foi o ponto inicial de suas pesquisas. Na sequência, ao ver em seu caminho para o trabalho que estavam
demolindo o prédio do Ministério da Agricultura, que chamavam de bolo de Noiva, ele passou a fotografar em preto e branco o trabalho pelo menos uma vez por semana com sua singela Kodak Instamatic. Foram as primeiras fotos de mais de 500 que acumulou andando pela cidade, aos domingos, fuçando imóveis de valor histórico sobre os quais lia nos jornais e pesquisava, com um grupo de amigos amadores (historiadores, fotógrafos e, por que não?, o médico) do patrimônio público. O material - cuidadosamente organizado em álbuns e guardado em estantes protegidas com vidro escuro, que ficam em lugar com pouca incidência de luz em sua casa, em Campo Grande - já inspirou dois livros, um deles recém-lançado, em parceria com o jornalista André Luís Mansur, outro apaixonado por coisas e causos cariocas. Como eles, amadores e militantes das causas arquitetônicas estão pelas ruas e pela rede tomando conta do Rio.

- Eu tentava imitar o Augusto Malta. Em 1982, lia muito nos jornais o nome de Carlos Manes Bandeira, pioneiro em escavações na Floresta da Tijuca. Soube que ele iria escavar ruínas na Fazenda Vila Rica, no Grajaú, e resolvi procurá-lo. Fui com minha máquina, que já era uma Olympus, e lá conheci o pesquisador Luiz Alexandre Franco Gonçales, o historiador Luiz Antonio de Miranda Valente, o historiador e
sociólogo Mario Aizen e o então fotógrafo iniciante Paulo Renato Pessanha, que tinha uns 17 anos. Com esta turma passei a sair aos domingos - relembra Ronaldo que, hoje, após um enfarte e uma artrose, quase não sai mais de casa. - Era uma atividade cara. O filme acabava na hora, muitas fotos saiam sem foco ou queimavam. Naquele tempo era complicado. Não tinha celular, Ipad.. A internet facilitou
muito. Agora passei a ser pesquisador de gabinete.

Foi a internet que uniu Ronaldo e André. Este - autor do blog "Emendas e sonetos", que sempre dá espaço para o Rio antigo em seus posts, além de livros como os dois volumes de "O velho oeste carioca" - tomou gosto por pesquisa histórica no fim da década de 1990. Ao conhecer Ronaldo, que lia seu blog, selecionou cerca de 30 fotos do novo amigo para com ele desenvolver pequenos textos que contassem um pouco do que se via nas imagens. O trabalho, que começou em 2010, demorou dois anos para ficar pronto. Em "Fragmentos do Rio antigo", há histórias como a da Fazenda de Nossa Senhora da Conceição, na Pavuna, demolida na década de 80 e que abrigava uma picota, a única descoberta até hoje na cidade. Picota era um instrumento de tortura dos escravos que substituía o pelourinho nas áreas mais afastadas do centro.

- Se a gente não tivesse feito as fotos, não haveria registros do local - conta o médico caçador de histórias, coautor de "Imagens do Rio Antigo hoje - Os bairros do grande Méier, em que umas cem das 387 fotos são dele. - Não fizemos nada de excepcional, só documentamos. Fomos lá porque eu tinha lido um artigo muito interessante na Última Hora, em 1983, sobre a tal picota. Uma semana depois, demoliram a fazenda.

- Como esse, há registros de outros pontos que não são fáceis de achar. Às vezes, ele tinha que fotografar do carro e sair correndo - diz Mansur, que aproveitou os relatos do médico, complementando com informações garimpadas em lugares como o Arquivo nacional, a Biblioteca Pereira Passos e o Arquivo Histórico do Exército.

- Agora, esse tipo de coisa é normal. Mas, nos anos 80, éramos quase subversivos - acrescenta Ronaldo.

Bem mais comum, sem dúvida. Que o diga o funcionário público e estudante de história Paulo Clarindo, responsável pelo blog "Amigos do patrimônio cultural", focado principalmente na Zona Norte, destinado a divulgar textos e fotos de interessados em história, arqueologia e patrimônio cultural:

- Sempre fui apaixonado por história e trabalhei com pesquisas e arquivos. A partir de 2000, comecei minha luta pela preservação do patrimônio. Criei o blog em nome do grupo de pesquisa, que chegou a reunir cerca de vinte pessoas, entre professores, historiadores, cartógrafos, arqueólogos. Focamos na Baixada, no subúrbio do Rio e no interior fluminense, e chegamos a ter 200 seguidores. Até hoje
trocamos figurinha pela internet.

Autor de mais de dez encaminhamentos ao Ministério Público, em nome do grupo, para tentar proteger imóveis com algum valor histórico e cultural, ele conta que a primeira mobilização foi em 2007, para salvar uma casa antiga, do início do século XX, na Rua Cônego Tobias, no Méier, que acabou indo abaixo. Outra briga é para que haja pesquisa arqueológica no local onde até 2005 funcionou o 15º Regimento de Cavalaria Mecanizado-Escola (15º R C Mec). Ali ficava o antigo Forte de Nossa Senhora da Glória do Campinho. A área foi adquirida em leilão por uma empresa que planejava a sua demolição, mas o terreno está abandonado e cercado por tapumes. Eles também colaboraram na ação civil pública que ordenava a retirada do asfalto colocado pela prefeitura de Magé em um trecho da Estrada de Ferro do Barão de Mauá. A luta continua:

- No dia 16 de abril, protocolei, em nome do grupo, uma petição no Iphan, que é o órgão responsável por todo o patrimônio férreo que pertenceu à Rede Ferroviária, para tentar preservar a estação de ferro Vila de Cava, em Nova Iguaçu. O que o cidadão não consegue fazer, entidades como o MP fazem em nome dele.

De uma maneira ou de outra, esses personagens do Rio também acabam entrando para a história que escrevem no dia a dia.

Fragmentos do Rio: o que as fotos não mostram, textos revelam

O que as fotografias não mostram, alguns capítulos de "Fragmentos do Rio antigo" revelam. Estão lá, além de informações sobre prédios históricos desconhecidos dos cariocas (como o da Fundição Cavina, em Lins de Vasconcelos, de onde saiu, por exemplo, a estátua de Tiradentes, que fica em frente à Assembleia Legislativa, hoje abandonado), fofocas e lendas perdidas no tempo por não caberem em livros
didáticos. "Sabe-se que nem todo brasileiro é apaixonado por carro, mas José do Patrocínio o era, até porque o seu era o único da cidade. E sua desolação foi imensa, pois seu carro foi a primeira 'perda total' do trânsito no Rio", conta o capítulo "No meio do caminho tinha uma árvore", que apresenta o poeta Olavo Bilac, amigo do abolicionista, como o primeiro "barbeiro" carioca: ao dirigir o veículo, um Peugeot preto trazido da França e movido a vapor d"água (com fornalha, caldeira e chaminé), jogou-o contra uma árvore.

No campo das lendas, está a de que o suposto rosto que aparece na Pedra da Gávea seria de um monarca fenício. Muita gente já ouviu isto não sabe onde. Lá pode saber um pouco mais sobre porque as inscrições que aparecem em uma parte da rocha até hoje não foram bem explicadas. E também supostas verdades que quase viram lendas, por falta de documentação, como a existência de Henriville, que teria sido o primeiro aglomerado urbano europeu das Américas. A "cidade" teria sido fundada pelos franceses comandados pelo almirante francês Nicolas Durand Villegagnon, em 1556, onde era a foz do Rio Carioca, no que hoje é o Aterro do Flamengo.

- O livro não tem uma continuidade. São fragmentos soltos, artigos. O que há em comum são as fotos do Ronaldo, que selecionamos e pesquisamos - explica Mansur. - Houve temas que não desenvolvemos porque faltavam informações, como o feiticeiro de Campo Grande, que faria sacrifícios de crianças no início do século XIX. Também tem a história dos piratas que saquearam a Ilha Grande, que falta aprofundar. Deixamos temas como esses para mais tarde. Até por isso, colocamos "Volume 1" embaixo do título.

- Com o acervo que a gente tem dá para fazer uns quatro ou cinco volumes - completa Ronaldo.


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