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Um porto de inovações

O Globo, Eduardo Vanini, 29/jan

Quando o consultor e curador em design e economia criativa Daniel Kraichete chegou à Zona Portuária do Rio para um estágio no Instituto Nacional de Tecnologia, em 2002, jamais poderia imaginar que, anos à frente, a mesma região se tornaria a queridinha da cidade. 

- As pessoas só iam até lá para tirar passaporte e voltavam. Era tão deserto que nem ladrão havia - ironiza ele. Quinze anos depois, Kraichete se tornou um entusiasta da região e, mais precisamente, de um perfil de negócio que tem prosperado de maneira especial por ali: o ramo da economia criativa, do qual ele faz parte. 

A área, que já abrigava iniciativas como a ocupação da Fábrica da Bhering, celeiro de artistas e designers, vive um boom de espaços de trabalho coletivo e núcleos de criação que fogem aos modelos tradicionais, desde que as obras de reurbanização começaram a ganhar corpo. Recentemente, um nome de peso engrossou a lista: o YouTube anunciou a instalação de uma unidade do YouTube Spaces, um espaço de criação e cursos voltados à exploração das possibilidades audiovisuais da plataforma, na região. Será a segunda unidade no Brasil (a primeira fica em São Paulo) e a inauguração deve ocorrer ainda este ano.

COMUNIDADE EMPREENDEDORA

Kraichete assiste a essa agitação com gosto. Ele é um dos responsáveis pelo Rua City Lab. Criado em agosto do ano passado, o espaço ocupa dois galpões cedidos por construtoras que queriam fomentar essa cena na área. A estrutura tem auditório, salas de aula, escritórios, oficina, loja, galeria de arte e espaço de coworking. Ali diversos negócios puderam se instalar, encontrando condições propícias ao desenvolvimento. A experiência deu certo e, em breve, a iniciativa ganhará um novo nome e objetivos mais específicos. - Agora teremos um projeto focado no empreendedorismo. Queremos criar uma comunidade empreendedora a partir do espaço, para que faça parte de uma rede de negócios com viés social e que estejam olhando para o território e o espaço público - detalha ele. 

Outra empresa que se mudou para a Zona Portuária foi a SuperUber, especializada em produzir experiências que unem arte, tecnologia, arquitetura e design. O negócio funcionava no Jardim Botânico e foi para um prédio na Gamboa em 2011, em busca de um espaço maior e com preço mais em conta.

- No começo, foi um perrengue, porque atravessamos todo o processo de obras e tivemos que lidar com tudo o que isso significa, como o fechamento de ruas e a dificuldade de acesso à internet - recorda-se Russ Rive, co-fundador da empresa.

Com o fim das intervenções e o estabelecimento de uma boa rede de transportes, a situação melhorou. Mas ele considera que é preciso ir além.

- Os empreendimentos mais novos são muito baseados no setor comercial. Isso faz com que a região fique morta à noite. É importante agora criar um ecossistema que atraia moradias. Assim teremos uma rede de lojas e cafés, por exemplo - pondera Russ.

Para a professora do MBA de Marketing da Escola de Negócios da PUC-Rio, Alessandra Baiocchi, ainda não é possível dizer que esta cena de indústria criativa está consolidada. Mas, na opinião dela, a cidade parece caminhar para isso, o que é muito bom.

- É uma vocação econômica. Estamos falando de um setor que tem como origem a criatividade e o talento e explora seu potencial de riqueza por meio da propriedade intelectual - observa ela, referindo-se a áreas como design, moda, artesanato, gastronomia, patrimônio, arte, música e arquitetura.

Na visão de Alessandra, cuidar para que a região do Porto continue a atrair esses negócios é algo estratégico.

- A economia é cíclica e agora é hora de se preparar para uma retomada no país. Se este potencial está se desenhando na região, é importante que a área esteja bem preparada para este momento - comenta ela.

O responsável pelo setor de Desenvolvimento Econômico e Social da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto, Rilden Albuquerque, afirma que, quando começou a ocupação, a administração se preocupou em atrair esses negócios para lá, já que combinam com o tom pensado para o projeto.

- A gente ofereceu auxílio para que se fixassem ali e conseguissem expandir seus negócios. Intermediamos eventuais conflitos e fizemos a interface com empresas interessadas em colaborar. Hoje já estão tão estabelecidos que nem precisamos fazer tantas intervenções - conta ele.

UNIDOS PELA CRIATIVIDADE

Um dos sinais desse fortalecimento é a criação do Distrito Criativo do Porto, que reúne 30 empreendedores da região.

- A gente funciona como uma espécie de embaixada, tentando trazer novas empresas e viabilizando novos negócios - conta Fernanda Guaraná, uma das fundadoras do grupo.

Juntamente com Daniel Maia, Fernanda também é um dos nomes por trás do Coletivo do Porto, um pool de quatro empresas que dividem espaço, ideias e experiências para desenvolver soluções em comunicação, marketing, desenvolvimento digital e eventos. Para ela, a união dessas iniciativas na região não poderia ser mais produtiva.

- É um jeito ótimo de se trabalhar. A gente se fortalece com nossas experiências e indica clientes uns para os outros. Com tantos parceiros, conseguimos oferecer serviços que apenas uma grande empresa ofereceria - comemora ela.

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Matéria impressa a partir do site da Ademi Rio [http://www.ademi.org.br]