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As pedras do caminho

O Globo, Elenilce Bottari, 16/jul

Chute a primeira pedra aquele que nunca tropeçou em um buraco. Com 12 mil quilômetros de extensão de ruas - mais que um quarto da circunferência da Terra - e 1,2 milhão de metros quadrados de pedras portuguesas pelo caminho, o Rio tem na má conservação de seus deslumbrantes passeios uma de suas mais antigas mazelas. O problema já passou por 50 prefeitos e intendentes, desde o tempo em que o Rio era Distrito Federal até a eleição de Marcelo Crivella. E vem justamente da atual administração a mais nova proposta de solução: a ideia é padronizar as calçadas da cidade. O secretário de Conservação e Meio Ambiente, Rubens Teixeira, desenvolve um projeto-piloto, em fase de finalização, com peças pré-moldadas de concreto intertravado, rotas de acessibilidade e faixas de piso tátil para guiar pessoas com deficiência visual. As novas calçadas terão canteiros gramados por toda sua extensão.

CRÍTICAS DE ESPECIALISTAS

Em dois meses, a pavimentação será testada na Praça Serzedelo Corrêa, em Copacabana. Mas, antes mesmo de ser assentado o primeiro bloco de cimento, o modelo já avança no terreno da polêmica. O receio é que as pedras portuguesas, uma marca do Rio, sejam substituídas. Teixeira garante que o pavimento será usado em ruas já "descaracterizadas". Só que o projeto-piloto começa numa praça que tem muitas dessas pedrinhas tão caras aos cariocas e, detalhe, estão em bom estado de conservação. 

- A ideia não é acabar com as ruas de pedras portuguesas. Pretendemos, inclusive, preservá-las, criando uma escola de calceteiros. A Avenida Atlântica, do Burle Max, é a maior obra de arte em extensão do mundo, com oito quilômetros. As ruas históricas serão preservadas. Mas também há muitas áreas descaracterizadas, com grandes remendos de cimento, onde já não se reconhece o desenho original - diz o secretário. 

Ele explica que escolheu começar as mudanças pela Serzedelo Corrêa por considerá-la a "vitrine" ideal para apresentar ao público a proposta que também passará por audiências públicas e pela Câmara de Vereadores. 

- O prefeito sugeriu que estudássemos uma padronização das calçadas americanas para o Rio. Optamos pelos blocos de cimento intertravados que podem ser retirados para reparos e recolocados. Fica mais fácil manter um padrão. O projeto-piloto, que não implicaria custos para o município, está sendo acompanhado, de acordo com a secretaria, pela Associação Brasileira de Cimento Portland, que reúne fabricantes de blocos e artefatos de concreto. Mas, na opinião do arquiteto e historiador Nireu Cavalcanti, o buraco é mais embaixo: 

- Antes de fazer qualquer coisa, a prefeitura deve à população quais as ruas que se pretende modificar. As pedras portuguesas são ideais para cidades como o Rio, quentes e com muita chuva. Elas têm grande permeabilidade e, quando bem assentadas, funcionam como um tapete. Nosso problema é a falta de conservação. E, frequentemente, quem reassenta a pedra não é um profissional. Para o arquiteto e urbanista Eduardo Barra, a prefeitura deveria começar a padronização pelos locais onde ainda não há pavimentação. 

- Não é nada contra o material em si, mas não vejo sentido em retirar uma pavimentação que existe e é tradicional, alegando que não se consegue fazer a manutenção. Se não consegue manter o que existe hoje, não conseguirá manter nenhum outro. O fato é que a prefeitura nunca teve a cultura da manutenção. Isso precisa ser mudado, não o piso - afirma Barra. 

- Essa história de piso intertravado é um lobby pesado que vem sendo feito no Brasil nos últimos 15 anos. Não teve impacto ainda no Rio, mas no resto do Brasil tem sido avassalador. Em Recife, arrancaram uma calçada em Boa Viagem, na Avenida Beira-Mar, com desenhos de peixinhos, tão característica quanto a nossa Avenida Atlântica. A lei 1.350, de outubro de 1988, prevê que limpeza, conservação ou mesmo construção das calçadas são atribuições do condomínio, do proprietário do imóvel ou do terreno. 

O arquiteto e urbanista Luiz Fernando Janot defende um grande debate para responder a questões importantes. - Levando em consideração as calçadas da cidade, serão uns 36 milhões de metros quadrados de pavimentação. Um negócio da China para a empresa que for a vencedora da licitação. O projeto-piloto tem que informar quanto vai custar o metro quadrado da obra, como será a reposição do material e se ele é durável. Ainda há risco de se criar vínculo de dependência com o fabricante pelo resto da vida. Tudo tem que ser muito avaliado e discutido - alerta, lembrando que até a grama nas calçadas deverá demandar um cuidado especial. 

Presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil, Pedro do Rio observa que a entidade já participou de três reuniões na secretaria para discutir a proposta. - A gente acha um projeto muito importante, mas é preciso ter um certo cuidado com a estrutura. O caminhar do pedestre é muito importante para mobilidade e lazer. Em especial no Rio, em que o carioca tem o hábito de passeios e de encontros em bares e praças. Concordamos, mas achamos que os moradores devem ser ouvidos, e as características de cada região precisam ser respeitadas - opina. Enquanto o projeto não sai do papel, a cidade enfrenta uma "epidemia" de buracos. Só este ano, o serviço 1746 da prefeitura recebeu 1.629 solicitações. Desse total, a Secretaria de Conservação e Meio Ambiente informa ter dado uma solução para 457. 

Os demais pedidos foram direcionados "aos responsáveis legais" (em geral, concessionárias que fazem serviços e depois não executam os reparos). Até ser rebatizada com o nome que tem hoje, a Rua Riachuelo era chamada Caminho de Matacavalos. Os inúmeros atoleiros dificultavam a passagem dos animais, provocando até lesões que os levavam a serem sacrificados. Mais de quatro séculos depois de aberta, em 1573, seus moradores e frequentadores ainda convivem com suas irregularidades. - Na semana passada, caiu uma senhora dentro desse bueiro que está sem tampa há dias - comentou uma moradora do prédio de número 253 da Riachuelo, na quarta-feira passada.

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