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Imóvel vazio não para em pé

O Globo, Eduardo Vanini, 16/jul

A contadora Lucy Leandro comprou um apartamento na planta como investimento. Mas, quando as chaves finalmente foram entregues, a crise estava instalada no país, e ela não conseguiu vendê-lo. Deixou nas mãos de uma imobiliária e ficou nove meses sem visitar o endereço. Quando resolveu "dar um pulo" no imóvel, veio o susto:

- Além de haver muita poeira por toda parte, as pias e os vasos sanitários estavam marcados com cor de ferrugem. Também havia teias de aranha e a varanda estava com uma parte úmida igual a infiltração, embora fosse consequência de uma chuva forte - relata ela. - Tive que fazer uma limpeza imediatamente, porque parecia tudo abandonado.

O episódio soou, para Lucy, como uma lição sobre algo que muitos proprietários não dão a devida atenção: imóvel vazio se deteriora rapidamente e precisa de cuidados regulares.

- Percebi que, se não fizermos uma manutenção periódica, nosso patrimônio acaba se desvalorizando e ainda temos que gastar para deixá-lo em ordem novamente - reflete Lucy. - Manter o apartamento limpo faz parte do processo de venda e locação.

Segundo o vice-presidente da administradora de imóveis Renascença, Edison Parente, o Rio tem enfrentado altas taxas de vacância, com unidades vazias por quatro meses, em média. Em algumas regiões, como a Barra e o Recreio, o índice pode chegar a seis.

- Neste meio tempo, muita coisa pode acontecer, como o estouro de uma tubulação - ilustra ele, frisando ser muito comum os donos não pensarem nisso, principalmente aqueles que moram em outras cidades.

Na opinião de Parente, é importante tomar atitudes como deixar cópias das chaves com vizinhos ou síndicos. Isso permite que ajam imediatamente, caso haja um imprevisto mais grave. Segundo ele, o ideal é que os responsáveis façam visitas regulares e garantam uma faxina dos cômodos a cada 15 dias, pelo menos. Caso contrário, o acúmulo de sujeira e até mesmo a presença de animais mortos e focos de mosquito serão inevitáveis.

- Quando isso acontece, o espaço acaba causando uma má impressão nos clientes - descreve ele. - E a chance de impressionar os inquilinos é única: precisa acontecer exatamente na primeira visita.

CHOQUE DE REALIDADE

O diretor do Conselho Regional dos Corretores de Imóveis no Rio, Laudimiro Cavalcanti, lembra que isso fica ainda mais delicado quando se leva em consideração que, em geral, as pessoas visitam os locais depois de terem visto fotografias das instalações.

- Essas imagens mostram os cômodos arrumados e com a pintura em dia. Caso a realidade não seja condizente com as fotos, a pessoa interessada acaba tendo uma decepção no momento da visita - alerta ele.

Segundo Cavalcanti, os locais mais críticos são a cozinha e o banheiro, por serem mais suscetíveis a vazamentos.

- Se houver um sinal de infiltração, por menor que seja o problema, o visitante vai imaginar que a rede hidráulica está toda comprometida - avisa ele, comentando que portas e janelas também precisam estar com o funcionamento perfeito. - O interessado não pode testar estes itens e encontrá-los emperrados. Não é simplesmente o fato de o imóvel estar vazio que causa a deterioração. Como frisa o coordenador do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia no Rio (Crea-RJ), Jorge Mattos, isso é fruto exclusivamente da falta de manutenção.

- Se aparece uma goteira ou um vazamento quando há alguém morando no endereço, a pessoa resolve imediatamente. Mas, quando a habitação está vazia, esses aspectos podem ser negligenciados - avalia ele.

É aí que mora o problema. Por causa dessa falta de cuidados, os proprietários acabam trocando as intervenções preventivas pelas corretivas, que têm custos mais altos e diminuem a vida útil das instalações.

- Com a crise financeira, essa postura tem sido ainda mais recorrente, já que muita gente corta a prevenção pela falta de receita. Mas não tem outro jeito, isso tem que ser prioridade. Afinal, além de levar a gastos maiores no futuro, a ausência de manutenção pode inviabilizar a venda ou o aluguel - observa Mattos.

A MARESIA NO ATAQUE

No Rio, casas próximas a aglomerações industriais ou diante do mar merecem atenção reforçada em função dos fenômenos externos, como a maresia, que acelera a deterioração. Segundo a arquiteta Fernanda Palles, há dois grandes vilões do tempo: a umidade, que traz o mofo, e o salitre, que corrói os metais.

- Em relação ao salitre, devesse evitar o uso de metais cromados em móveis e acessórios e optar por peças de alumínio e aço inox, sendo que alguns desses metais podem vir com uma camada de proteção. As dobradiças também devem ser de aço inoxidável, bastante resistente - recomenda ela. - Nos armários, uma boa ventilação se faz necessária. Aconselho remover o mofo com pano úmido e sabão neutro, secando em seguida.

Para quem tem oportunidade de fazer intervenções no imóvel antes de anunciá-lo, Fernanda lembra que cuidados com alguns detalhes amenizam a ação do tempo. Pisos de porcelanato ou cerâmica, por exemplo, têm manutenção mais fácil. Já os de madeira natural desbotam com o tempo ou podem dar cupim.

- Da mesma forma, papeis ou tecidos de parede exigem ventilação e devem ser evitados em habitações vazias, pois tendem a gerar mofo. Embora possam ser facilmente trocados, esse custo não é desejado por quem vai alugar. Quanto às tintas, recomendo utilizar pintura epóxi em ambientes com umidade. Esse material é resistente à água e às variações de temperatura, e é de fácil de manutenção - finaliza ela.

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Matéria impressa a partir do site da Ademi Rio [http://www.ademi.org.br]