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Contra a verticalização

Globo Barra, Thalita Pessoa, 12/out

O arquiteto e urbanista Sérgio Ferraz Magalhães, que preside o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), é o nome por trás do programa Favela Bairro, que reurbanizou, no fim do século passado, cerca de 150 favelas no Rio. Foi ele quem coordenou a equipe responsável pela política habitacional que, pela primeira vez, entendeu as favelas como lugar não transitório e que, por isso, entre outras questões, opõe-se ao projeto da prefeitura de verticalização do Rio das Pedras, tema da reportagem de capa do GLOBO-Barra na semana passada.

Pelas informações divulgadas pela prefeitura, o senhor é a favor ou contra o projeto?
Este projeto é uma ideia equivocada. O problema de Rio das Pedras não é a falta de moradia, mas a falta de governo. Se em Ipanema uma loja decide ampliar seu espaço na calçada, os moradores reclamam e o governo vai lá multar, impedir. Nas favelas, o governo não tem essa ação, por isso reinam as construções irregulares e o banditismo.

Essa política é a melhor forma de urbanizar as favelas?
O esforço que as famílias pobres fazem no Brasil para morar é inacreditável. Sem herança, financiamento e sem acertar na loteria, quando que eles terão uma casa própria? Imaginar que elas deixarão suas casas para ir para um apartamento, contraindo uma dívida muito acima do rendimento delas, é um exercício de otimismo. Urbanizar o que já existe é uma política muito mais saudável.

Um modelo com gabarito alto é aconselhável?
Modelos de casas populares geralmente são mal construídas, totalmente subsidiadas, apresentam defeitos de projeto, têm uma qualidade inferior e demandam um recurso além do que as famílias têm para pagar o condomínio. O ideal é que se construa prédios de, no máximo, seis pavimentos sem elevador, porque com elevador a manutenção se torna mais cara, mais difícil. Urbanizar o que já existe custa muito menos do que construir uma casa nova, que custa no mínimo cinco vezes mais.
E Rio das Pedras ainda está numa região conhecida pelo terreno instável.

A localização ali é a pior possível (para uma construção muito alta). Grande parte do subsolo é frágil. Ali é uma argila mole, é como construir sobre uma gelatina. A construção se esparrama para o lado e faz assorear a lagoa. A prefeitura acha que está fazendo algo inédito, achando que vai fazer um milagre. Tem um corpo técnico muito capacitado, com pessoas que sabem que não é assim porque têm essa experiência, mas ignora isso.

Na geração de novas moradias na cidade, quais seriam as alternativas?
Há outras soluções. Fizemos um estudo na faculdade só levando-se em conta áreas ociosas ou abandonadas na região do Centro, de Benfica e de São Cristóvão. Projetando-se apartamentos de seis pavimentos, estimamos a geração de 150 mil moradias, em regiões que já têm toda a infraestrutura.

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Matéria impressa a partir do site da Ademi Rio [http://www.ademi.org.br]