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Aprovação de novo marco regulatório do saneamento pode destravar IPO da Iguá

O Globo online, Capital, 02/jul

As metas estabelecidas pelo novo marco do saneamento trazem desafios imensos: para cumprir o plano de universalizar o fornecimento de água potável e a coleta e tratamento de esgoto até 2033, será preciso investimentos da ordem de R$ 500 bilhões a R$ 700 bilhões.

Paulo Mattos, sócio-fundador da gestora de private equity IG4 Capital, controladora da Iguá, uma das quatro empresas privadas de saneamento do país, acredita que não vai faltar apetite no mercado - mas o sucesso vai depender do desenho dos editais. 

- Saneamento é a bola da vez para atrair investimentos, um ativo altamente resiliente em crises como a atual. Liquidez não falta -, diz Mattos. - Mas ainda temos desafios importantes no desenho dos editais para remunerar o capital de forma atraente. Algumas regiões terão dificuldade pois a população não terá renda para remunerar via tarifa, mas isso poderá ser resolvido com subsídios cruzados, como no Luz para Todos. 

A Iguá acaba de testar o apetite do mercado: aprovou duas emissões de debêntures, no valor total de quase R$ 900 milhões, com Itaú BBA e XP Investimentos e BTG Pactual, para um prazo de de 14 e 12 anos, e que serão destinadas a financiar a demanda de investimentos das duas concessões da rede da Iguá (Paranaguá e Cuiabá).

O próximo passo deve ser o IPO, que segundo fontes, deve acontecer ainda este ano - ou mais tardar no início do ano que vem, que é quando as novas oportunidades de concessões devem começar a aparecer, após a posse dos novos prefeitos. 

Mas os projetos devem de fato acelerar a partir de março de 2022, quando vence o prazo de adequação das estatais e começa a valer a regra para a abertura de editais, que poderão contar com participação de estatais e empresas privadas.

A Iguá chegou a testar as águas do mercado para um IPO em agosto de 2019, mas adiou o processo em março, com a eclosão da crise provocada pela pandemia do coronavírus. Agora que o novo marco foi aprovado e o apetite do mercado está voltando, é questão de encontrar a melhor janela. 

A Iguá caminha para ser a primeira companhia privada de saneamento a fazer IPO no país, se somando as estatais já listadas Sabesp, Sanepar e Copasa. Ao menos é a mais adiantada: é a única das quatro operadoras privadas de saneamento a estar listada no Bovespa Mais. 

Dentre as privadas, a Iguá é a terceira em número de clientes, atrás da BRK e da Aegea, e seguida da Águas do Brasil. Faturou R$ 900 milhões ano passado, com Ebitda R$ 288,4 milhões (e margem de 45,4%).

Por meio de concessões e PPPs, a Iguá atua em 37 municípios em cinco estados, atendendo seis milhões de pessoas. A empresa nasceu a partir da compra da CAB Ambiental da Galvão, que na época, julho de 2017, estava envolvida na Lava Jato e altamente endividada. 

Em dois anos e meio, depois de investimentos que R$ 495 milhões e de reequacionar a dívida da companhia, a Iguá dobrou a cobertura de coleta e tratamento de esgoto em Cuiabá, de 30% para 60%. (Somando todas as concessões da Iguá, os investimentos somam R$ 927 milhões.)

A empresa também introduziu novas tecnologias de construção com estruturas pré-moldadas em aço e carbono, substituindo grandes obras de concreto, reduzindo os custos e o tempo de obra e mais eficiência energética. O esgoto, que era despejado diariamente no Rio Cuiabá, no meio do Pantanal, foi reduzido em 16 toneladas ao dia. A água tratada ganhou flúor, mesmo sem uma exigência contratual. (Com o novo marco, isso será mandatório.) 

Mattos se exalta ao ver o debate em torno do marco regulatório se concentrar na questão de público versus privado.

- As pessoas ficam nessa discussão quase obsessiva de público vs. privado que não é racional. Pergunta para o cidadão que tem criança que morreu por problemas associados à falta de saneamento. São 10 mil pessoas, sendo 4 mil crianças que morrem por ano - , diz ele

Mattos acredita que um dos grandes méritos da nova lei é justamente não privilegiar um modelo ou outro, mas estabelecer metas e punições para quem não cumprir, inclusive no setor público.

- Não importa se vai ser empresa privada ou pública. É a combinação do público e do privado que vai fazer com que a gente desenvolva o país. A novidade do novo marco é que a estatal vai ter que incorporar metas de investimento e de cobertura. E se não fizer o investimento e não melhorar o serviço, o gestor público vai ser punido com base na lei de responsabilidade fiscal e de improbidade administrativa. Isso desmonta a discussão do público versus privado. 

Saneamento é apenas uma das verticais de investimento da IG4 Capital, gestora que tem US$ 500 milhões em ativos sob gestão e selo de empresa B. São dois fundos, baseados no Reino Unido e captação 100% no exterior, e um foco em distressed assets na área de infraestrutura.

A IG4 também controla a Opy Health, holding que administra hospitais em PPP com o SUS. Hoje a Opy está presente com um hospital em Belo Horizonte e outro em Manaus - cuja gestão foi assumida no meio da pandemia - e deve fazer novas aquisições até o fim do ano.

A gestora acaba de adquirir o controle da CLI, operadora do Tegram, o terminal de grãos do Maranhão. E investiu no ano passado na Grana & Montero no Peru, empresa de engenharia que administra uma linha de Metrô em Lima e que entrou em dificuldades após se envolver em escândalos de corrupção junto com a Odebrecht.

O IG4 estuda ainda novas aquisições nas áreas de transporte e logística e energia, no Brasil, e também em minerais raros na América Latina.

Para um fundo especializado no turnaround de empresas com alto endividamento, depois da leva da empresas quebradas por conta do envolvimento nos escândalos da Lava-Jato, novas oportunidades podem surgir com a crise provocada pela pandemia.

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