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Inovação comanda casa inteligente

Valor Econômico, Setorial Construção Civil, 14/out

A busca pela produtividade levou a construção brasileira a adotar estratégias de industrialização e mecanização por meio de pré-moldados, produzidos fora ou mesmo no canteiro das obras, e de equipamentos que garantem mais segurança e eficiência. Agora, as construtoras mais inovadoras dão um passo além rumo à automação, e as tecnologias de informação e comunicação (TICs) estão cada vez mais presentes.

O instituto de pesquisas de tecnologia Gartner prevê que residências terão mais de 500 dispositivos inteligentes até 2022. As categorias de produtos domésticos inteligentes variam de mídia e entretenimento - consoles e TVs - até eletrodomésticos - fogões, geladeiras e máquinas de lavar-, além de tecnologias de segurança, controles ambientais, equipamentos para saúde e ginástica. O Gartner prevê que Wi-Fi, Bluetooth, ZigBee, redes celulares e várias tecnologias de rede sem fio terão espaço na casa inteligente.

Para se adaptar a este novo mundo, as construtoras de empreendimentos de alto padrão estão criando nas construções a infraestrutura necessária para tornar viável a adoção de novas tecnologias. Um exemplo é a Concal, que está concluindo no Leblon - bairro nobre com o metro quadrado mais caro do Rio de janeiro e do Brasil - o empreendimento platinum, prédio de seis andares com cinco apartamentos, um por andar, mais uma cobertura dúplex. A empresa fechou uma parceria com a High End, especializada em automação residencial, para dotar o empreendimento do conforto que a tecnologia e a automação permitem.

"O metro quadrado na zona sul do Rio começa a ficar tão caro que é possível melhorar a especificação dos materiais, das fachadas e introduzir a automação. O platinum conta com cabeamento e infraestrutura, e a High End oferece automação, em que o céu é o limite. A fachada utiliza vidro translúcido que substitui a alvenaria e oferece iluminação natural dentro do imóvel como se a parede estivesse acesa", diz Rodrigo Caldas, presidente da Concal. A garagem terá ainda o sistema duplicador de vagas Grid Park Krebs, desenvolvido pela Krebsfer, empresa suíça, com estruturas de andares para agilizar e facilitar a vida do morador.

A High End oferece sensores e controles para luz, som, temperatura ambiente, luz decorativa, cortina, TV, home theater e controle de banheira, que podem ser programados a distância. O usuário que costuma acordar à noite pode programar o sistema de sensores para que as luzes do trajeto se acendam e apaguem no momento certo. No caso de uma festa surpresa, o morador pode programar para que a música, as luzes e a TV liguem de forma sincronizada.

Nas obras, a tecnologia da informação está sendo empregada em diversas áreas. A Camargo Corrêa contratou da Wolk um sistema para gestão dos ativos, que utiliza sensores, telemetria e computadores de bordo nos equipamentos. Segundo Claudinei Benzi, CEO da Wolk, por melhor que seja a gestão, as obras não conseguem utilizar 46% do potencial das máquinas. O software reúne dados de telemetria e as informações enviadas pelo operador, que se comunica via rede celular GPRS, satélite, rádio ou Wi-Fi por meio de dispositivos como tablet, teclados alfanuméricos ou GPS.

A Camargo Corrêa utilizou o sistema na hidroelétrica de Jirau com comunicação via rádio e via GPRS nas obras de saneamento em São Lourenço (SP). Nas obras de duplicação da ferrovia da Vale, em Carajás (PA), o sistema usa satélite e é utilizado para apontamento eletrônico, permitindo que o operador receba ordens de serviço e gere informações que alimentam um banco de dados para que o gestor possa tomar decisões. Em São Paulo, a Camargo Corrêa Desenvolvimento Imobiliário usou o sistema para gerenciar oito gruas utilizadas por diferentes prestadores de serviço.

"Por trabalhar com um volume absurdo de dados, o sistema conta com recursos de inteligência artificial e se baseia em parâmetros introduzidos pelo gestor como 90% de utilização das máquinas, 5% de manutenção corretiva, 3% de absenteísmo. O sistema pega dados históricos e fica sugerindo ações para que o operador atinja as metas, como, por exemplo, aumentar a velocidade para que o prazo seja cumprido."

A Even adotou um sistema de gestão da segurança do trabalho, automatizando as vistorias nas obras por meio de um dispositivo que garante o atendimento de todos os requisitos e normas. Segundo Carlos Laun, gerente-geral de planejamento, suporte e operação da empresa, o processo antes era por meio de um formulário, mas desde 2013 os técnicos contam com um tablet para acesso e inclusão de informações sobre normas classificadas por níveis de risco, que vão de aceitáveis a intoleráveis. "Hoje, extraímos o relatório em meia hora, antes levava um dia, após a digitação. Há um concurso de segurança e, no fim do ano, as três obras mais seguras serão premiadas."

A Gafisa implantou em seus canteiros de obra uma gestão informatizada de insumos via coletor de código de barras. O objetivo é garantir a disponibilidade do material a ser utilizado no momento exato de sua aplicação, reduzindo estoques, excessos e sobras, que poderiam resultar em desperdícios.

Luiz Augusto Milano, presidente da Matec, defende que a construção no Brasil tem de passar por uma mudança radical em processos e tecnologias. Para ele, se a obra é intensiva em mão de obra, a pontualidade e a garantia da qualidade correm risco. Ele observa que, depois do boom dos últimos anos, o setor imobiliário passa por uma situação que é resultado da aposta equivocada na quantidade de lançamentos, sem que eles fossem acompanhados de uma metodologia de produção que garantisse conformidade, qualidade, prazos e entregas.

"Isso não aconteceu. Imagine o mercado regulado pelo e-social, que entra em vigor em fevereiro, e vai colocar online todas as informações tributárias e sociais. Isso vai inviabilizar as horas extras e exigir uma precisão maior. Quem não tiver processos com tecnologia e industrialização vai encontrar dificuldades. A Matec é toda industrializada, trabalhamos com pré-moldados e abolimos a alvenaria. Antes, tínhamos de contratar mão de obra. Hoje, gerenciamos e preparamos fornecedores, porque as empresas de instalação não estão preparadas para não ter mais mão de obra intensiva. Nas obras comerciais, a industrialização atinge 85%, nas industriais chega a 95%", diz Milano.

A Cury investiu em métodos construtivos que garantem produtividade, como alvenaria estrutural com lajes pré-moldadas, içadas por guindaste e gruas e paredes de concreto de fôrma de alumínio. "Usamos o método sobretudo no Rio, onde falta mão de obra. Cerca de 95% das nossas obras são do Minha Casa, Minha Vida, no qual a produtividade é o foco. Construímos 25 mil unidades", diz Gustavo Gagliardi, gerente-geral de obras da empresa.

Cássio Barbosa, diretor de contratos da Engineering, especializada em projetos, destaca o método de construção invertida conhecida como Top Down. Enquanto no modelo tradicional de construção são feitas a escavação do solo, a fundação e as lajes do subsolo para só então elevar as torres, no Top Dow executa-se a estrutura do prédio simultaneamente para baixo no subsolo e para cima na torre, por meio da criação de uma fundação provisória.

"Reduz o prazo de execução e permite a antecipação de receitas. Não é o método mais barato e sua utilização deve levar em conta estudo de viabilidade que justifique o custo maior. Vem sendo utilizado com mais freqüência em função da disseminação das estruturas 'steel deck'. Usamos no prédio do Centro de Integração Empresa- Escola (CIEE), em São Paulo, e vamos adotá-lo na construção do Projeto Síncroton, do Laboratório Nacional de Luz Síncroton, ligado ao Centro Nacional de Pesquisa e Energia e Materiais (CNPEM), que vai colocar o Brasil na vanguarda da pesquisa nessa área", diz Barbosa.

A indústria também acelera os investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Paulo Manfroi, vice-presidente de serviços da ThyssenKrupp Elevadores, observa que o edifício é uma ótima opção de habitação nos centros urbanos, mas, segundo a Agência Internacional de Energia, representa 40% do consumo energético das grandes cidades. A ThyssenKrupp pesquisa para obter menor consumo de energia e melhor uso do tempo e do espaço. O sistema regenerativo de energia permite que o prédio receba parte da energia devolvida pelo motor de tração do elevador sempre que ele subir com menos da metade da sua capacidade ou quando descer com a capacidade acima de 50%. O sistema foi adotado no Edifício Eldorado Business Tower, em São Paulo, que tem certificação Leadership in Energy and Environmental Design (Leed).

"Hoje, com a eletrônica, o consumo dos elevadores não chega a 10%. O controle eletrônico de potência por variação de tensão e freqüência permitiu a criação de máquinas de alto rendimento sem engrenagem, eliminando o consumo de óleo. A iluminação a LED reduz o consumo de energia em até 30%, e sistemas de no-break dispensam o uso de geradores. Para otimização de tempo há a chamada antecipada: quem escolhe qual elevador vai atender a quem chamou é o sistema", diz Manfroi.

A indústria química atua na construção fornecendo novos materiais, métodos construtivos e insumos e aditivos. Mônica Evangelista, gerente de desenvolvimento de mercado da Braskem, defende que o plástico tem vantagens de leveza, produtividade e sustentabilidade, porque é 100% reciclável. Entre os produtos estão macrofibras para reforço de concreto usado para pisos em substituição à tela metálica e microfibras para reduzir a retração do concreto inibindo fissuras. A empresa oferece ainda geomembranas e geotêxteis para impermeabilização de solo.

A Dow e a Basf têm uma extensa linha de aditivos e impermeabilizantes livres de substâncias cancerígenas. Segundo Vanessa Grossi, gerente de marketing para construção da Dow, a indústria é pressionada para a redução de emissão de carbono que é relacionada à utilização de cimento. O DustShield reduz a geração de poeira na produção do concreto. A empresa oferece ainda argamassas colantes e de revestimento, rejunte selante e massa de vedação.

A Basf, segundo Camila Lourenci, gerente de estratégia para indústria da construção, tem investido em produtos com foco em eficiência energética com soluções de conforto térmico e reaproveitamento energético como pigmentos frios para ser adicionado às tintas e o Micronal, microcápsulas poliméricas com parafina que, adicionada a massas e argamassas, regula a temperatura.

Já os pesquisadores da Tigre saíram dos laboratórios e foram aos canteiros de obras levantar as demandas dos construtores. Segundo Guilherme Lutti, gerente corporativo de pesquisa e desenvolvimento da empresa, desse processo saíram soluções simples como o sistema de fixação de tubos plásticos composto por abraçadeiras, que atenderá às linhas de esgoto, água fria e água quente, eletricidade, industrial e infraestrutura, para instalações aparentes nas posições verticais e horizontais. Outro produto é o sistema de tubulações para gás Alpex Gás Tigre, voltado para condução de gás natural ou GLP com benefícios, como facilidade na instalação, manutenção e resistência.

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Matéria impressa a partir do site da Ademi Rio [http://www.ademi.org.br]