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Um legado abandonado

O Globo, Letícia Lopes e Renan Rodrigues, 11/set

Enquanto os olhos do mundo todo se voltam para a obra de Burle Marx - cujo sítio, em Barra de Guaratiba, é candidato a Patrimônio Cultural Mundial da Unesco - , o Rio não tem dedicado a atenção necessária às realizações do paisagista espalhadas pela cidade. Na última semana, uma equipe do GLOBO percorreu dez projetos do mestre e encontrou problemas de manutenção em nove deles, a maioria em áreas sob responsabilidade da prefeitura. O único em bom estado era o jardim do Hospital da Lagoa, que é federal.

Uma das situações mais críticas é a da Praça do Teatro Armando Gonzaga, em Marechal Hermes. Lá, os canteiros de flores imaginados pelo paisagista desapareceram. A grama não teve destino melhor: parte dela morreu e foi substituída por brita. Tomado por lixo, o local, que, no passado, era cenário para fotos de casamentos realizados na Paróquia Nossa Senhora das Graças, que fica bem em frente, hoje atrai apenas a população de rua.

A 26 quilômetros dali, o abandono se repete no Parque do Flamengo, uma das estrelas dos projetos de Burle Marx e forte candidato a integrar o circuito de visitas guiadas a obras do paisagista que será oferecido durante o 27º Congresso Mundial de Arquitetura, ano que vem, no Rio. Perto do Museu de Arte Moderna (MAM), as curvas do calçamento de pedras portuguesas estão ameaçadas pela má conservação e pelo crescimento descontrolado de raízes de árvores, que causam desníveis no terreno.

Na última segunda-feira, um dos lagos do local estava vazio, enquanto outro acumulava lixo e limo, em um claro sinal de falta de limpeza. A reportagem ainda flagrou um homem usando o espelho d'água do MAM para lavar carros na região de forma irregular, sem qualquer fiscalização.

- É como se a gente deixasse destruir uma obra de Pablo Picasso ou abandonasse uma de Michelangelo - lamenta o arquiteto e urbanista Sergio Magalhães, presidente do comitê organizador do Congresso Mundial de Arquitetura.

Para Magalhães, o Rio é privilegiado por ter um acervo tão rico e precisa cuidar do legado do paisagista.

- Se não, as futuras gerações perderão esse patrimônio. A obra de paisagismo requer manutenção permanente - defende.

Manutenção que simplesmente não existe na Praça Senador Salgado Filho, a poucos metros do Aeroporto Santos Dumont. O grande lago está sem água, tomado pela sujeira. Parte da grama está morta e os ralos, quebrados. Em outro ponto movimentado do Rio, o Largo da Carioca, é a desordem urbana que impede a apreciação da obra do arquiteto-paisagista. É impossível ver os desenhos no calçamento de pedras portuguesas porque o espaço está tomado por moradores de rua e ambulantes. Tem até estacionamento de bicicletas de aluguel: na última terça-feira, 120 "laranjinhas" transformavam o local em um depósito a céu aberto.

- É uma poluição visual muito grande, uma mendicância enorme - criticou o advogado Elcio Pinto, que passava pelo local sem desconfiar que havia um dedo de Burle Marx no largo.

No Fundão, o projeto de paisagismo no entorno do Instituto de Puericultura e Pediatria da UFRJ também passa despercebido porque o espaço virou um estacionamento. O vaivém de carros já destruiu parte das pedras portuguesas, que também sofrem com a falta de manutenção em projetos no Leme, na Praça Chaim Weizmann, em Botafogo, e no Largo do Machado.

ESPERANÇA DE VALORIZAÇÃO

Para o arquiteto e urbanista Lucas Franco, vice-presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio e um dos responsáveis por montar o circuito de visitação a obras de Burle Marx durante o congresso, o roteiro poderá a valorizar o legado do artista no Rio.

- A ideia é sensibilizara população para o valor dessas obras. Podemos jogar luz - diz, esperançoso.

A Fundação Parque e Jardins afirmou, em nota, que tem trabalha dopara manter os jardins da cidade. A Secretaria municipal de Conservação, por sua vez, informou que fará vistorias em todos os locais citados para programar reparos. Já a Gerência de Monumentos e Chafarizes explicou que o lago na lateral do MAM foi esvaziado para conserto de infiltrações. A pasta diz que os outros lagos são limpos semanalmente. A Secretaria de Fazenda argumentou que realiza a cada semana ações contra ambulantes nos largos da Carioca e do Machado. A Tembici, responsável pelo sistema de bicicletas de aluguel, alegou que tem "autorização da prefeitura do Rio de Janeiro para operar" no Largo da Carioca.

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