Home office cada vez mais perto do fim? Em tendência mundial, Itaú faz maior locação de escritórios da história do Brasil

em Diário do Rio / Economia, 19/setembro

Banco aluga 91,4 mil m² em duas torres para quase 10 mil posições de trabalho e reforça movimento global de retorno aos escritórios; Amazon, JP Morgan, Microsoft, Nubank, Vale e Petrobras estão entre as gigantes que já reduziram ou abandonaram o trabalho remoto.

Aquela previsão feita durante a pandemia de que os grandes escritórios ficariam para sempre vazios parece cada vez mais distante da realidade. O Itaú Unibanco acaba de protagonizar a maior locação de escritórios já registrada no Brasil, justamente para acomodar o aumento da presença física de seus funcionários. O banco fechou contrato para ocupar integralmente as duas torres do Esther Towers, complexo corporativo da Eztec, na Avenida Chucri Zaidan, uma das principais regiões empresariais de São Paulo. São nada menos que 91,4 mil metros quadrados de escritórios e aproximadamente 9.600 posições de trabalho. (CNN Brasil)

O tamanho da operação ajuda a dimensionar a mudança. O contrato terá duração inicial de dez anos, prorrogável por mais cinco, e deverá proporcionar à Eztec aproximadamente R$ 1,17 bilhão em receitas de aluguel somente na primeira década, pelos valores atuais. Os pagamentos serão corrigidos anualmente pelo IPCA e ainda poderão passar pelas revisionais tradicionais do mercado imobiliário. A intermediação da operação ficou a cargo da CBRE, pelo lado da proprietária, e da Binswanger Brazil, representando o Itaú. (CNN Brasil)

O complexo é formado por duas torres corporativas de alto padrão e será ocupado exclusivamente pelo banco. A entrada ocorrerá gradualmente, acompanhando a entrega dos edifícios. Segundo o próprio Itaú, o novo endereço faz parte de seu plano de investimentos em infraestrutura e foi escolhido pensando em ambientes que favoreçam colaboração, integração das equipes e troca de conhecimento — conceitos que, curiosamente, voltaram a ganhar peso no discurso das grandes empresas depois de alguns anos em que se chegou a anunciar que a convivência diária no escritório estaria condenada ao passado. (CNN Brasil)

Há uma ironia difícil de ignorar. Durante a pandemia, o Itaú devolveu diversos espaços corporativos à medida que adotava o home office. Agora, precisa ampliar novamente sua área física justamente porque seus funcionários passarão cada vez mais tempo dentro dos escritórios. A partir do primeiro trimestre de 2028, empregados administrativos submetidos ao regime híbrido deverão comparecer presencialmente pelo menos três dias por semana. Para os superintendentes, a exigência sobe para quatro dias semanais já em janeiro de 2027, frequência atualmente exigida dos diretores. (CNN Brasil)

O banco possui mais de 80 mil funcionários no Brasil. Aproximadamente 40% já trabalham presencialmente, especialmente no atendimento ao público e em funções dependentes da estrutura física das agências e escritórios. Os outros cerca de 60% estão majoritariamente no sistema híbrido — exatamente o contingente que deverá passar a ocupar os escritórios com maior frequência nos próximos anos. (CNN Brasil)

A conta imobiliária também impressiona. O preço pedido pela locação estava entre R$ 120 e R$ 125 por metro quadrado. Considerando períodos de carência e descontos concedidos na negociação, o valor líquido foi estimado em aproximadamente R$ 106 por metro quadrado. O próprio complexo é avaliado pelo mercado em cerca de R$ 1,5 bilhão, e o Itaú terá preferência caso a Eztec decida vendê-lo. (CNN Brasil)

Um ano depois das demissões no home office

A nova operação chama ainda mais atenção porque ocorre apenas um ano depois de o DIÁRIO DO RIO noticiar a demissão de mais de mil funcionários do Itaú que trabalhavam nos sistemas remoto ou híbrido. Na ocasião, em setembro de 2025, o banco afirmou ter realizado uma revisão das condutas relacionadas ao trabalho remoto e ao registro de jornada e disse ter encontrado, em alguns casos, incompatibilidades entre as atividades efetivamente registradas nos equipamentos e os horários informados pelos empregados. (Diário do Rio)

No mês seguinte, o presidente-executivo do banco, Milton Maluhy Filho, voltou ao assunto e afirmou que parte dos funcionários desligados entregava desempenho muito abaixo do exigido pela instituição. O episódio tornou-se mais um capítulo da discussão que já vinha ocorrendo dentro de grandes companhias sobre produtividade, controle de jornada, integração das equipes e os limites do modelo remoto. (Diário do Rio)

A resistência dos trabalhadores ao movimento de volta aos escritórios também não é novidade. Em reportagem publicada pelo Diário ainda em fevereiro de 2024 e posteriormente lembrada nas matérias sobre Amazon, Vale, Petrobras e o próprio Itaú, uma diretora de Recursos Humanos de uma grande companhia do setor de Óleo e Gás do Rio resumiu, sob condição de anonimato, a dificuldade encontrada pelas empresas: “Ninguém quer controle, ninguém quer abrir mão do que considera um benefício. Mas quem paga o salário quer produtividade e entrega pessoal. É óbvio que ninguém quer devolver prêmio de loteria.” (Diário do Rio)

Passados mais de dois anos, parece que muita gente continua pouco disposta a devolver o bilhete premiado. O problema é que são as empresas, afinal, que estão decidindo as regras do jogo.

Uma tendência que atravessa o mundo

O gigantesco contrato do Itaú está longe de constituir um movimento isolado. O Diário acompanha desde 2023 o progressivo recuo do home office nas maiores empresas do planeta. A Amazon, uma das companhias que melhor simbolizaram a economia digital durante a pandemia, determinou o retorno de seus funcionários aos escritórios cinco dias por semana e posteriormente estendeu a política às suas operações brasileiras. A medida colocou a empresa ao lado de gigantes como JPMorgan Chase, Goldman Sachs, Google, Dell, Disney, Apple, Meta, Salesforce, BlackRock e companhias do grupo de Elon Musk, que passaram a restringir ou abandonar diferentes modalidades de trabalho remoto. O JPMorgan, maior banco dos Estados Unidos, determinou o retorno presencial cinco dias por semana. (Diário do Rio)

Em setembro de 2025, foi a vez de a Microsoft, durante anos considerada um dos grandes bastiões da flexibilidade, comunicar aos empregados a necessidade de voltar aos escritórios pelo menos três vezes por semana. No Brasil, a Vale determinou maior presença física de suas equipes, enquanto a Petrobras também avançou na redução do trabalho remoto. O UOL chegou a eliminar o home office de plantões jornalísticos em fins de semana, feriados e períodos de fim de ano. O movimento atravessou setores completamente diferentes — tecnologia, bancos, mineração, petróleo, comunicação e serviços — e deixou de poder ser tratado como decisão isolada de uma ou outra direção empresarial. (Diário do Rio)

Até mesmo o Nubank, cuja cultura corporativa esteve durante anos entre as mais flexíveis do sistema financeiro, começou em julho de 2026 a transição para um regime com presença física regular. Cerca de 70% dos funcionários passaram a ter de comparecer aos escritórios ao menos duas vezes por semana, frequência que deverá chegar a três dias semanais em janeiro de 2027. O fundador e CEO David Vélez justificou a mudança destacando justamente aquilo que diversas outras empresas passaram a defender depois da experiência do trabalho remoto: cultura empresarial, pertencimento, inovação, coordenação e produtividade coletiva. (Diário do Rio)

Os efeitos já aparecem também no mercado imobiliário. No Rio, o Diário vem acompanhando a queda da vacância, o retorno de grandes ocupações e a crescente procura por escritórios de qualidade no Centro. Em fevereiro deste ano, a escassez de grandes áreas de padrão Triple A já pressionava empresas a ampliar a busca para outros prédios da região. Em julho, o Centro havia ultrapassado a Barra da Tijuca na absorção líquida de escritórios e até parte do estoque de edifícios corporativos mais antigos começava a sentir a recuperação. O próprio Nubank prepara uma nova e grande sede no Centro carioca. (Diário do Rio)

O que nasceu como resposta emergencial a uma pandemia, portanto, vai perdendo espaço como modelo dominante de organização das grandes empresas. O trabalho híbrido certamente continuará existindo em numerosas atividades, assim como funções integralmente remotas permanecerão adequadas a determinados setores. Mas a ideia, repetida à exaustão há alguns anos, de que as grandes companhias abandonariam definitivamente seus escritórios não resistiu muito bem ao tempo.

Quando um único banco decide comprometer mais de R$ 1 bilhão em aluguel e ocupar 91,4 mil metros quadrados, criando espaço para quase 10 mil postos de trabalho presenciais, já não se está diante apenas de um discurso de executivos sobre a importância de reunir equipes. É concreto, aço, vidro, cadeira, mesa — e gente voltando para o escritório. A tendência que o Diário acompanha há anos é mundial. E, para o home office como se imaginava no auge da pandemia, o bilhete premiado parece estar cada vez mais perto da data de devolução.


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