Eduardo Cavaliere assume a Prefeitura do Rio com o desafio de combater a desordem urbana e tocar projetos prometidos por Paes

em O Globo / Rio, 20/março

Pressão de cariocas pode fazer do ordenamento urbano do município uma das principais bandeiras do novo governo.

O novo prefeito Eduardo Cavaliere (PSD) assume o município com um caixa de R$ 52 bilhões previsto para este ano, o maior orçamento da história cidade. A situação fiscal o deixará confortável, mas com a necessidade de ser criativo para superar os desafios de cuidar do dia a dia de uma cidade complexa como o Rio e realizar grandes projetos. Um dos mais ambiciosos é o Praça Onze Maravilha — de revitalização do entorno do Sambódromo. O sucessor de Eduardo Paes também herdou a missão de tocar a nova etapa do programa Reviver, voltado para a Zona Norte, e de fazer intervenções em São Cristóvão, com as mesmas regras do Porto Maravilha.

Diante da pressão de cariocas, o ordenamento urbano deve aparecer na lista de prioridades de Cavaliere. Os dados do Portal Rio 1746 mostram que a principal reclamação dos cidadãos desde janeiro do ano passado é o estacionamento irregular nas ruas, com 208 mil denúncias — a maior parte na Zona Sul do Rio. A região, que recebe muitos turistas, também enfrenta problemas com a ação irregular de flanelinhas. A prefeitura tem estudos em andamento para criar um sistema eletrônico de controle das vagas com preços variáveis de acordo com a demanda de cada área.

Vítimas de trânsito

O trânsito é outro alvo de queixas. Com um grande aumento de motociclistas e ciclistas na cidade, o ordenamento para que a convivência nas ruas seja harmoniosa é um desafio sem solução à vista. O número de acidentes com motociclistas pressiona a rede de saúde pública, a ponto de a prefeitura precisar destinar um setor do Hospital Federal do Andaraí para atender a essas vítimas. A ampliação do número de ciclovias e motofaixas na cidade, prometida pela gestão, é uma das possíveis soluções. Na orla, a falta de fiscalização para as bicicletas e patinetes elétricas não escapa das críticas dos cariocas.

Pedidos por zeladoria

Uma análise do que chega às estatísticas do 1746 mostra que o morador do Rio quer uma cidade mais organizada e limpa. Somadas, as solicitações de consertos de luminárias, reparos de buracos e remoção de lixo das ruas ultrapassam 190 mil protocolos desde janeiro de 2025.

Os problemas na cidade também podem ser reflexo do orçamento. Se em 2024 a prefeitura destinou à Secretaria municipal de Conservação mais de R$ 1 bilhão, no ano passado o investimento caiu para menos da metade, R$ 427 milhões. A previsão é que a pasta tenha R$ 780 milhões para gastar este ano.

Outro percalço — principalmente para os motoristas — foi a suspensão do programa Asfalto Liso, de manutenção das vias públicas, por determinação do Tribunal de Contas do Município devido a falhas na licitação. O serviço será retomado este ano, com previsão de um investimento de R$ 222,8 milhões.

Já as grandes intervenções terão como menina dos olhos o Praça Onze Maravilha, que vem sendo chamado de o “Porto Maravilha de Cavaliere”. A revitalização dos bairros Catumbi, Estácio e Cidade Nova não tem o nome como única coincidência com o projeto da Zona Portuária na década passada. Um dos pilares é a derrubada do Elevado Trinta e Um de Março. E, se a Praça Mauá tem o Museu do Amanhã, a Praça Onze terá a Biblioteca dos Saberes, desenhada pelo arquiteto Francis Kérè, vencedor do prêmio Pritzker, considerado o Nobel da arquitetura.

A prefeitura ainda planeja incluir no projeto uma nova Cidade do Samba para as agremiações do Grupo Especial. Os barracões ficariam na Avenida Presidente Vargas, bem perto do Sambódromo.

A previsão é de um investimento total de aproximadamente R$ 1,75 bilhão, por meio de uma parceria público-privada. Um projeto de lei que permite as modificações propostas pela prefeitura ainda tramita na Câmara Municipal. Estão sendo feitas audiências públicas para depois o tema ser debatido no plenário da Casa. A previsão é que as obras sejam concluídas somente em 2032.

Moradias na Av. Brasil

Também são debatidas com a população ideias para a nova etapa do Reviver, esta voltada para a Zona Norte da cidade. Até o fim do ano passado, a prefeitura recebeu informações, por meio de uma consulta pública, sobre imóveis em Bonsucesso, Olaria, Ramos, Manguinhos e Maré que poderão receber empreendimentos residencias e de serviços, além de áreas verdes e de lazer. A requalificação da região também vai mirar a recuperação da Avenida Brasil, onde podem surgir novas moradias. Esse será mais um projeto em que a prefeitura aposta no financiamento por parcerias público-privadas (PPPs).

Na órbita do Porto Maravilha, foram anunciadas novas regras para o bairro Imperial de São Cristóvão. Um novo residencial já começou a ser construído, mas o programa por lá ainda engatinha.

Perto dali, há uma promessa que se arrasta por muitos governos. A revitalização da antiga Estação da Leopoldina foi iniciada por Paes após uma batalha para conseguir a transferência do imóvel do governo federal para a prefeitura. As obras hoje estão a passos lentos, mas o projeto é grandioso. Além de recuperar o prédio histórico, num terreno anexo, está prevista a construção da Fábrica do Samba, para as escolas de samba da Série Ouro, que atrasou e só deve ficar pronta no ano que vem. Na mesma área, ainda há espaço projetado para um residencial.


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