Como já se sabe, depois de anos fechado e acumulando custos elevados, o antigo prédio do Jockey Club no Centro do Rio entrou de vez no radar da Prefeitura, já no apagar das luzes da gestão de Eduardo Paes, que dias depois renunciou ao cargo para disputar o Governo do Estado. O imóvel da Avenida Almirante Barroso, na região do Castelo, foi incluído no acordo firmado na última semana entre o município e o Jockey Club Brasileiro para quitar uma dívida milionária de ISS (Imposto Sobre Serviços). Na prática, parte dos cerca de R$ 280 milhões será paga com a cessão do edifício, enquanto o restante será parcelado.
A operação encerra uma novela antiga e, ao mesmo tempo, abre outra frente. Projetado por Lúcio Costa nos anos 1950, o prédio de 12 andares e 82,5 mil metros quadrados de área útil estava desocupado há anos, gerando um custo estimado de R$ 3 milhões anuais ao clube. Além de resolver o problema, a prefeitura passa a incorporar um ativo de peso em plena área central, a poucos metros do Palácio Capanema, um dos marcos da arquitetura moderna brasileira, agora recém ocupado.
Requalificação do Centro
O plano ainda não está fechado, mas a linha de raciocínio já está praticamente desenhada. A gestão municipal quer usar o imóvel como mais uma peça na requalificação do Centro, movimento que vem sendo puxado pelo programa Reviver Centro, voltado à recuperação de prédios antigos e à retomada da ocupação de edifícios corporativos e comerciais ociosos. Nos bastidores, a avaliação é que o prédio tem perfil de “âncora”, capaz de atrair fluxo, negócios e novos investimentos para a região.
Diferentemente de outros ativos públicos que vêm sendo colocados à venda, a prefeitura não parece inclinada a simplesmente leiloar o edifício. A leitura interna é que um leilão poderia gerar forte depreciação, principalmente pelo porte e pela complexidade do imóvel. A alternativa mais provável, segundo o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico Osmar Lima, é uma modelagem imobiliária em que o município mantém a propriedade e traz parceiros privados para explorar diferentes frentes do prédio.
A ideia passa por fatiar usos. Há espaço para escritórios, restaurantes, lojas, eventos e até estacionamento, o que abre margem para múltiplas operações simultâneas. Segundo Osmar, em entrevista ao portal Metro Quadrado, a lógica é estruturar o ativo de forma inteligente, com operadores distintos e soluções financeiras que não pesem nos cofres públicos. “ali pode ser a sede de várias coisas, é um prédio muito imponente, super icônico, eu não descartaria nenhuma possibilidade. Nós enquanto cidade estamos prontos para sermos desafiados, mas o uso do imóvel vai depender mais do mercado” disse o secretário.
Prédio já foi oferecido aos BRICS
Não é a primeira vez que o imóvel entra em discussões estratégicas para viabilizar seu uso. No ano passado, o prefeito Eduardo Paes chegou a mencionar o prédio como possível sede para o BRICS no país.
O edifício, aliás, tem atributos que jogam a favor. O conjunto é formado por quatro blocos interligados, com usos mistos e soluções típicas da arquitetura modernista, como os pilotis que liberam o térreo para circulação pública e uma cobertura pensada como espaço de convivência. Ainda assim, o desafio é grande. Estimativas apontam que a recuperação completa pode custar cerca de R$ 100 milhões, valor que exige engenharia financeira e interesse privado para sair do papel.
A dívida original do Jockey girava em torno de R$ 1,9 bilhão, mas foi reduzida em cerca de 85%, chegando aos R$ 280 milhões negociados. O imóvel, avaliado em aproximadamente R$ 250 milhões, entra como peça central dessa conta, em um arranjo costurado pela Procuradoria-Geral do Município.