Quando ainda concluía a graduação em Engenharia Civil, Vinícius Augusto Pereira Benevides já demonstrava interesse por um dos temas que mais tarde marcariam sua trajetória profissional. Registros curriculares públicos apresentam seu trabalho de conclusão de curso sob duas formulações próximas: “Lei 8.666/93 — na visão da engenharia” e “Licitações e Contratos de Obras Públicas no Estado do Rio de Janeiro”. Mais de duas décadas depois, aquele assunto de faculdade está no centro da missão que ele assume como vice-presidente de Infraestrutura da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) e presidente da Comissão de Infraestrutura (COINFRA) para a gestão 2026–2029.
A nomeação leva ao comando de uma das áreas estratégicas da principal entidade representativa da construção brasileira um engenheiro cuja carreira se desenvolveu quase integralmente no Rio de Janeiro. Fundada em 1957, a CBIC reúne 98 sindicatos e associações patronais nas 27 unidades da Federação e atua como interlocutora do setor diante dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. A COINFRA concentra discussões sobre obras públicas, concessões, parcerias público-privadas, financiamento, custos, licenciamento, marcos regulatórios e modelos de contratação. Benevides sucede Carlos Eduardo Lima Jorge, a quem define como seu mentor, na nova administração nacional da entidade presidida por Eduardo Aroeira Almeida.
Das licitações na faculdade às obras do Rio
Formado em Engenharia Civil pela Universidade Gama Filho, Benevides fez MBA em Gestão de Negócios pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e cursos de extensão em incorporação imobiliária, engenharia legal, ESG e pavimentos flexíveis. Possui ainda a certificação internacional CP3P, voltada à estruturação de parcerias público-privadas e concessões. A combinação entre engenharia, gestão empresarial, contratos e financiamento ajuda a explicar o espaço conquistado por ele numa área em que decisões técnicas quase sempre estão ligadas a questões jurídicas, financeiras e administrativas.
Sua carreira empresarial foi construída na Dimensional Engenharia, companhia aberta no Rio em 1994 e na qual Benevides passou a figurar formalmente como sócio-administrador em fevereiro de 2004, quando se encontrava no período final da formação universitária. Atualmente, ocupa o cargo de diretor operacional e exerce também a função de responsável pelas iniciativas de inovação da empresa. A trajetória reúne a vivência cotidiana de canteiros e contratos com uma atuação crescente no debate institucional sobre engenharia, infraestrutura e administração pública.
O currículo apresentado por entidades profissionais e pela própria Câmara Municipal do Rio relaciona Benevides à responsabilidade técnica de algumas das obras mais conhecidas realizadas no estado nas últimas duas décadas. Entre elas estão a Arena de Handebol — a chamada Future Arena — dos Jogos Olímpicos Rio 2016, a implantação do Parque Madureira, o empreendimento habitacional Morar Verde Babilônia, a recuperação da pista da Linha Amarela, o PavimentaRio, o Asfalto Olímpico e o Asfalto Liso. A relação inclui ainda o viaduto em arco metálico com lançamento longitudinal executado em Três Rios, o alargamento e a requalificação de aproximadamente 30 quilômetros da RJ-146, a manutenção de estradas na Região Serrana e intervenções em logradouros da Área de Planejamento 5, na Zona Oeste carioca.
Parte desse trabalho já foi apresentada pelo próprio engenheiro nas páginas do DIÁRIO DO RIO. Em artigo publicado em fevereiro de 2024, Benevides detalhou as soluções técnicas empregadas na recuperação do pavimento do Aterro do Flamengo e na eliminação do conhecido “pulinho de São Conrado”. No texto, informou ser o responsável técnico pelo contrato do Asfalto Liso nas áreas de planejamento 1 e 2, que abrangem o Centro, a Zona Sul e a Grande Tijuca. O artigo revelou também uma característica recorrente de sua atuação: a defesa da utilização de ensaios, equipamentos de monitoramento, mapeamento digital e mecanismos de transparência em obras urbanas.
Inovação e sustentabilidade como marcas da carreira
Benevides passou a ganhar projeção no setor também pela aproximação entre engenharia tradicional, ferramentas digitais e sustentabilidade. Foi autor de trabalhos premiados pelo InovaInfra em 2020, 2021 e 2022, abordando temas como o uso de drones na criação de modelos virtuais BIM, o emprego da tecnologia para ampliar a transparência e a neutralização das emissões de carbono na construção. Também participou de encontros nacionais da indústria e de conferências do Green Building Council voltadas à incorporação dos princípios de ESG aos projetos de engenharia.
Em março de 2026, a Dimensional conquistou pela quinta vez o Prêmio InovaInfra com um artigo técnico de autoria de Benevides sobre a primeira aplicação urbana monitorada, no Brasil, de uma mistura asfáltica morna produzida com o CAP Pro W, desenvolvido pela Petrobras. O experimento foi realizado na Rua Figueiredo de Magalhães, em Copacabana, em colaboração com pesquisadores da COPPE/UFRJ. De acordo com os dados apresentados pelo projeto, a tecnologia permitiu reduzir em cerca de 32?°C a temperatura média de produção e aplicação do asfalto e diminuir aproximadamente 10% das emissões de dióxido de carbono equivalente por tonelada de mistura produzida.
Essa atuação lhe rendeu o Prêmio Líderes do Rio de 2022 na categoria Inovação e, dois anos depois, o reconhecimento na categoria ESG. Benevides também foi apresentado pela revista O Empreiteiro como um dos protagonistas da engenharia nacional na década de 2010 a 2020 e recebeu a Medalha de Mérito Pedro Ernesto, principal honraria concedida pela Câmara Municipal do Rio. Em 2022, foi ainda um dos coautores do livro A Infraestrutura Brasileira perante a Nova Lei de Licitações e Contratos, publicado pela BrasInfra.
A Dimensional passou igualmente a ser reconhecida por entidades empresariais por seus investimentos em transformação digital e sustentabilidade. A empresa foi apresentada como a primeira construtora do Rio a neutralizar suas emissões de carbono, além de receber premiações relacionadas à responsabilidade ambiental, à segurança e às condições dos canteiros. Benevides costuma sustentar que tecnologia, inovação e preocupação ambiental não devem ser tratadas como acessórios de marketing, mas como ferramentas capazes de elevar a produtividade, a qualidade e a durabilidade das obras.
Uma carreira construída também nas entidades
Paralelamente à atuação empresarial, Benevides ampliou sua presença nas organizações representativas da engenharia e do mercado imobiliário. É vice-presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado do Rio de Janeiro (Sinduscon-Rio), integra como vice-presidente a diretoria da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário do Rio de Janeiro (ADEMI-RJ) para o mandato de 2026 a 2027 e ocupa função de direção no Clube de Engenharia. Antes de chegar à vice-presidência da CBIC, já participava do conselho da entidade e de debates nacionais sobre licitações, saneamento, concessões e infraestrutura.
Uma parte menos visível de sua trajetória foi desenvolvida dentro de grupos técnicos. Benevides integrou o grupo do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia que trabalhou na Resolução nº 1.137, de 2023, responsável por instituir a Certidão de Acervo Operacional, documento destinado a comprovar a experiência das empresas de engenharia. Em 2025, passou a representar o Sinduscon-Rio e a Dimensional em outro grupo, desta vez no CREA-RJ, criado para normatizar e tornar mais eficiente a emissão das certidões de acervo técnico e operacional. Também já participou do Conselho Municipal do Meio Ambiente, do acompanhamento das concessões de saneamento do Estado do Rio e do Fórum da Construção Civil da Firjan.
Esse percurso institucional ajuda a explicar sua escolha para a COINFRA. O cargo não exige apenas experiência na execução de obras. Pressupõe capacidade de dialogar com ministérios, governos estaduais e municipais, Congresso Nacional, Tribunal de Contas da União, tribunais de contas locais, agências reguladoras, bancos, concessionárias e empresas de diferentes portes.
A agenda que Benevides leva à COINFRA
O principal diagnóstico da nova gestão é o de que o Brasil não sofre apenas pela falta de dinheiro para infraestrutura, mas pela incapacidade de transformar recursos e anúncios em projetos maduros, contratações viáveis e obras efetivamente concluídas. Benevides usa como referência o Acórdão nº 1.079/2019 do Tribunal de Contas da União (TCU), que encontrou 14.403 contratos paralisados em um universo de aproximadamente 38 mil analisados. Na amostra examinada para identificar as causas, 47% das paralisações estavam relacionadas a problemas técnicos e 23% ao abandono pelas empresas. “A obra mais cara para o país é aquela que não termina”, resume o engenheiro.
Para ele, a solução começa antes da licitação. A nova COINFRA pretende defender estudos, sondagens, levantamentos topográficos e projetos básicos suficientemente detalhados para permitir uma precificação realista. A comissão deverá trabalhar também por orçamentos mais próximos dos custos efetivos, critérios proporcionais de qualificação técnica e econômico-financeira, garantias de proposta anteriores à fase de lances, matrizes de risco equilibradas e mecanismos mais rápidos de recomposição do equilíbrio dos contratos.
Um dos pontos mais enfáticos da agenda é a oposição ao uso do modo de disputa aberto em licitações de obras de engenharia. Benevides apelidou esse sistema de “EngeBet”, argumentando que a dinâmica sucessiva de lances pode empurrar empresas a descontos incompatíveis com a execução do objeto. A tese defendida pela nova direção é a de que o interesse público não está necessariamente no menor preço nominal, mas na proposta que entregue a obra com funcionalidade, qualidade, prazo e durabilidade. A comissão deverá defender o modo fechado, garantias contratuais adequadas, critérios mais claros de exequibilidade e punição efetiva para empresas que apresentem propostas e posteriormente abandonem os contratos.
A gestão pretende ainda propor ao TCU uma revisão da composição do BDI — parcela dos orçamentos que contempla despesas indiretas, riscos e remuneração das empresas —, difundir os comitês de prevenção e solução de disputas, conhecidos como dispute boards, e estabelecer regras gerais mais objetivas para o reequilíbrio econômico-financeiro dos contratos. Benevides defende também que a segurança jurídica seja bilateral: assim como a construtora deve responder pelo cumprimento do contrato, o Poder Público precisa manter pagamentos, cronogramas e obrigações assumidas.
Outra proposta é a criação de um Plano Diretor das Obras Públicas com horizonte mínimo de dez anos. A ideia seria organizar uma carteira nacional segundo critérios de retorno econômico e social, urgência, maturidade dos projetos, capacidade de financiamento e possibilidade concreta de conclusão, reduzindo o abandono de investimentos a cada mudança de governo. Entre as áreas consideradas mais urgentes estão saneamento e segurança hídrica, prevenção de enchentes e deslizamentos, adaptação climática, mobilidade urbana, logística integrada, geração e transmissão de energia, infraestrutura digital, manutenção preventiva e retomada das obras paralisadas.
O financiamento, na visão do novo presidente da COINFRA, terá de combinar recursos públicos e privados. Concessões e PPPs devem ser utilizadas onde houver retorno econômico capaz de atrair capital, enquanto o investimento estatal continuará necessário nos projetos cujo benefício seja predominantemente social. Benevides pretende ainda fazer da comissão uma espécie de antena nacional, recolhendo problemas enfrentados nos diferentes estados e oferecendo informação, treinamento e inteligência de mercado, inclusive para pequenas e médias construtoras.
A chegada de Vinícius Benevides à liderança da COINFRA fecha, portanto, um percurso profissional de rara coerência temática. O problema das licitações públicas, que já aparecia em seu trabalho de faculdade, acompanhou sua experiência como engenheiro, empresário, autor de trabalhos técnicos e representante das entidades do setor. Agora, passa a ocupar o centro de uma agenda nacional.
O desafio será demonstrar que exigências técnicas mais rigorosas, garantias e filtros de capacidade podem reduzir abandonos e melhorar as entregas sem se transformar em barreiras à concorrência legítima ou à participação de empresas menores. A própria direção da comissão afirma que não pretende defender reservas de mercado, mas contratos claros, preços realistas, pagamentos regulares e obrigações cumpridas por todos. Para o Rio de Janeiro, a nomeação coloca um engenheiro formado e profissionalmente construído no estado no centro das discussões nacionais sobre as obras e os investimentos que poderão definir a infraestrutura brasileira nos próximos anos.