Prédio velho não é problema, é estoque

em Acionista / Opinião, 15/outubro

Retrofit e reconversão devolvem à cidade o que ela já tem e abrem uma das melhores oportunidades do mercado imobiliário carioca.

Durante muito tempo, a palavra “antigo” foi sinônimo de desvalorização no mercado imobiliário, hoje, defendo o contrário. No Rio de Janeiro, o prédio antigo é um dos ativos mais subestimados da cidade e quem enxergar isso primeiro vai colher os melhores resultados.

Terreno bem localizado é cada vez mais escasso e caro. Construir do zero exige área, licenças, prazo longo e custos de obra que não dão trégua. Já uma edificação existente, em região com infraestrutura completa, transporte, comércio e serviços, chega ao investidor com a parte mais difícil resolvida: a localização. O que falta é atualizar o que está por dentro.

É isso que o retrofit faz. Modernizar fachada, sistemas elétricos e hidráulicos, elevadores, climatização e áreas comuns, preservando a estrutura e, muitas vezes, a identidade do edifício. A reconversão vai além e muda o uso. Um prédio comercial esvaziado pode virar residencial, estúdios, hospedagem ou uso misto. Em ambos os casos, a cidade ganha sem expandir um metro além do que já ocupa.

A primeira é a mudança no uso dos escritórios. Com o trabalho híbrido, muitas lajes corporativas antigas perderam competitividade diante de prédios novos e eficientes. Mantê-las como estão é cada vez menos viável. Reinventá-las é onde mora a oportunidade.

A segunda é a demanda por moradia em áreas centrais e bem servidas. Há gente querendo viver perto do trabalho, do metrô e da vida urbana e o estoque de unidades compactas bem localizadas ainda é insuficiente. A reconversão responde diretamente a essa necessidade.

A terceira é o ambiente de juros e crédito. O custo de capital tem peso significativo em projetos de retrofit, que frequentemente exigem investimentos elevados antes de gerar receita. Por isso, uma melhora nas condições de financiamento pode ampliar a viabilidade de empreendimentos que antes não apresentavam retorno suficiente. Ainda assim, cada projeto depende de uma análise própria de custos, prazo e demanda.

A dimensão dessa oportunidade aparece nos próprios números da cidade. Em agosto de 2026, a Prefeitura do Rio informou ter mapeado mais de 4 mil imóveis degradados na região central. O levantamento reforça o potencial de requalificação do estoque construído, embora nem todos esses imóveis sejam necessariamente viáveis para reconversão. O desafio está em identificar quais edifícios podem ganhar novos usos com segurança, viabilidade econômica e respeito às exigências urbanísticas e patrimoniais.

Mas, para ser justo, é preciso falar também dos riscos. Retrofit não é aventura para amador. Estrutura mal avaliada, instalações obsoletas escondidas atrás da parede, exigências de patrimônio histórico e questões de condomínio podem corroer a margem de quem entra sem estudo. A due diligence técnica e jurídica não é detalhe, é o projeto. E o preço de aquisição precisa refletir o custo real da transformação, não a expectativa de valorização futura.

Também defendo que o poder público faça sua parte, com regras claras, licenciamento ágil e incentivos que tornem a conversão de uso previsível. Quando o investidor sabe o que pode fazer e em quanto tempo, o capital aparece. Quando não sabe, ele simplesmente vai para outro lugar.

Na Vizu, vemos esse interesse crescer na prática: investidores e proprietários perguntando não só “quanto vale este prédio hoje”, mas “o que ele pode se tornar”. Essa mudança de pergunta é, para mim, o sinal mais claro de que o mercado está amadurecendo.

Minha conclusão é que a próxima grande oportunidade do mercado imobiliário do Rio não está em terrenos que ainda não existem, mas em prédios que já estão aí, esperando que alguém os enxergue de outro jeito. Quem fizer as contas com rigor, escolher bem o ativo e respeitar a complexidade da obra tem diante de si um dos caminhos mais sólidos para investir na cidade nos próximos anos.


Ver online: Acionista / Opinião