O Edifício Aliança da Bahia, no Centro do Rio de Janeiro, ganhou novos olhares ao ser escolhido como endereço da CASACOR Rio 2026. Mas, antes de receber a mostra, o imóvel passou por um importante processo de transformação conduzido pelo arquiteto Ruy Rezende.
O projeto de retrofit atualizou a infraestrutura e reorganizou seus espaços internos, demonstrando como construções históricas podem incorporar novas funções sem perder sua identidade original.
A história do Edifício Aliança da Bahia
Localizado na Rua Araújo Porto Alegre, diante do Palácio Gustavo Capanema, o Edifício Aliança da Bahia foi construído entre 1957 e 1961 para abrigar a Companhia de Seguros Aliança da Bahia. Seu projeto original, atribuído ao Escritório Técnico Ramos de Azevedo, integra um importante conjunto de construções modernistas da região da Esplanada do Castelo.
Com 15 pavimentos, o edifício apresenta características marcantes da arquitetura moderna brasileira, como fachadas envidraçadas, brises metálicos e revestimentos em mármore travertino. Esses elementos combinam expressão estética e funcionalidade, especialmente no controle da iluminação natural e na relação entre os ambientes internos e a paisagem urbana.
Reconhecido por seu valor arquitetônico e tombado pelo Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, o imóvel representa um período em que o modernismo redefiniu a paisagem do Centro carioca, introduzindo novas soluções construtivas e espaciais.
O projeto de retrofit de Ruy Rezende
O projeto de requalificação foi desenvolvido pelo escritório Ruy Rezende Arquitetura (RRA), em colaboração com a AORO Arquitetura e Urbanismo. A proposta partiu de um desafio comum aos edifícios históricos: adaptar uma construção concebida para outra época às necessidades contemporâneas, respeitando suas características originais.
Diferentemente de uma reforma convencional, o retrofit arquitetônico envolve uma modernização mais abrangente, que pode incluir infraestrutura, instalações, desempenho ambiental e reorganização dos ambientes. No Aliança da Bahia, a intervenção buscou prolongar a vida útil do imóvel e ampliar suas possibilidades de ocupação.
Ruy Rezende acompanhou o desenvolvimento do projeto até sua morte, em dezembro de 2024. As obras foram concluídas em 2025, após aproximadamente dois anos e meio de intervenções, consolidando um dos últimos trabalhos de sua trajetória profissional.
Preservação das fachadas e transformação dos interiores
Um dos principais cuidados da intervenção foi preservar a identidade modernista do edifício. As fachadas, marcadas pela combinação entre vidro, elementos metálicos e revestimentos nobres, permaneceram como referências fundamentais do projeto original.
Internamente, porém, a organização dos espaços passou por mudanças importantes. Os pavimentos, anteriormente compartimentados em diversas salas, foram transformados em lajes mais amplas e integradas, seguindo o conceito de open space.
Essa configuração permite diferentes possibilidades de ocupação e favorece a flexibilidade dos ambientes. Assim, a estrutura existente ganhou condições para atender a novas demandas, sem que fosse necessário descaracterizar os elementos arquitetônicos mais representativos do conjunto.
Tecnologia e novos usos para um edifício histórico
O processo de modernização também incorporou ferramentas contemporâneas de planejamento. Entre elas, a modelagem BIM (Building Information Modeling), utilizada para compreender as condições da edificação e compatibilizar as novas soluções com sua estrutura existente.
Outro elemento previsto na requalificação foi a criação de um rooftop destinado à convivência e à gastronomia, aproveitando a localização privilegiada e as vistas para a paisagem arquitetônica do Centro do Rio.
Mais do que recuperar um imóvel, essas intervenções demonstram como o retrofit pode contribuir para a sustentabilidade urbana. A reutilização de estruturas existentes ajuda a reduzir a necessidade de novas construções e valoriza o patrimônio já incorporado à cidade.
O legado de Ruy Rezende para a arquitetura contemporânea
Ao longo de sua carreira, Ruy Rezende desenvolveu projetos ligados à arquitetura corporativa, à sustentabilidade e à transformação dos espaços urbanos. Entre seus principais trabalhos está o Parque Madureira, também no Rio de Janeiro, que exemplifica sua atuação em projetos voltados à qualificação da cidade.
No Edifício Aliança da Bahia, esse pensamento aparece na capacidade de conciliar passado e futuro. Em vez de substituir uma construção histórica, o projeto reconheceu suas qualidades e encontrou soluções para manter sua relevância.
O resultado evidencia uma das contribuições mais importantes do retrofit: a possibilidade de renovar a arquitetura sem apagar sua memória, permitindo que edifícios de diferentes épocas continuem fazendo parte da vida contemporânea.