Setor da construção civil vive ’melhor momento de sua história’

em O Tempo / Ecomonia, 11/janeiro

Apesar da taxa básica de juros em 15%, que tem sido alvo de críticas, segmento tem saldo positivo de contratações e boa perspectiva de lançamentos.

O setor da construção civil não tem motivos para reclamar. Aliás, com exceção da taxa básica de juros em 15%, apontada como alta pela maioria dos empresários, a perspectiva é positiva para esse mercado. O Produto Interno Bruto (PIB) do setor deve encerrar 2025 com crescimento de 1,8%, segundo estimativas da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP). Para especialistas do setor, essa “boa maré” se deve, principalmente, ao avanço do Minha Casa, Minha Vida (MCMV).

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o setor avançou 1,3% no terceiro trimestre de 2025, depois de recuar 0,7% no primeiro trimestre do ano e 0,3% no segundo. “O mercado da construção segue em um momento positivo. Isso se deve aos contratos de infraestrutura e ao bom desempenho do Minha Casa, Minha Vida. É uma boa notícia para o emprego e para a renda no país”, aponta Renato Correia, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC).

Um dos fatores que impulsionou o programa social foi a mudança da Faixa 1, que era limitada a famílias com renda de até R$ 2.850 e deverá contemplar quem ganha aproximadamente dois salários mínimos a partir deste mês. O ministro das Cidades, Jader Filho, projetou a contratação de 1 milhão de novas unidades até o final deste ano. Com isso, o programa deve encerrar 2026 com 3 milhões de unidades financiadas.

"O MCMV vem exibindo forte ritmo de crescimento. Em novembro do ano passado, foram registrados 80 mil novos financiamentos, acima da média mensal de 60 mil observada até outubro. Uma a cada três contratações tem sido direcionada à Faixa 1", afirma. O programa também passou a contar com a Faixa 4, criada para atender famílias com renda entre R$ 8 mil e R$ 12 mil.

Esse movimento se reflete no desempenho das empresas que atuam em larga escala dentro do MCMV. No Grupo Direcional, que engloba as empresas mineiras Direcional Engenharia e Riva Incorporadora, os resultados do terceiro trimestre de 2025 mostram a força da demanda.

“Na Direcional, a receita líquida chegou a R$ 1,2 bilhão, um aumento de 27% na comparação com o mesmo período de 2024. As vendas líquidas somaram R$ 1,6 bilhão, crescimento de 10% sobre o ano anterior, e setembro se destacou como o melhor mês da história da empresa, totalizando R$ 832 milhões em vendas brutas”, detalha Paulo Sousa, diretor financeiro e de relações com investidores do Grupo Direcional. Na Riva, a outra marca do grupo, os lançamentos atingiram R$ 1,2 bilhão no terceiro trimestre de 2025, alta de 186% em relação ao mesmo período de 2024.

Thiago Correa Ely, diretor executivo comercial da MRV&CO, afirma que “o setor está vivendo o melhor momento de sua história” e que a empresa está otimista em relação aos próximos meses. “Com um déficit habitacional ainda significativo no país, nosso mercado conta com uma demanda constante”, diz.

Nos três primeiros trimestres de 2025, a MRV lançou mais de 31 mil unidades, sendo 97% delas enquadradas no programa federal Minha Casa, Minha Vida. Em Minas Gerais, foram lançados sete empreendimentos, totalizando mais de 1,9 mil apartamentos. “O programa habitacional ajudou a empresa a driblar o cenário de juros altos e impulsionou a receita operacional em 17,6%, além de estimular um aumento de 35,5% no lucro bruto”, revela.

Uma das consequências desse bom momento é que a construção manteve saldo positivo de contratações formais. No acumulado dos últimos 12 meses, até outubro de 2025, o emprego com carteira no setor cresceu 2,84% - somando mais de 3 milhões de trabalhadores no Brasil. Segundo dados da CBIC, São Paulo (23.006), Belo Horizonte (9.727) e Fortaleza (5.881) foram as três cidades que mais criaram novos empregos na construção civil de janeiro a agosto de 2025.

Alta nas vendas do cimento

Matéria-prima essencial na construção civil, o cimento também foi beneficiado pelo aquecimento do setor. De acordo com balanço divulgado pelo Sindicato Nacional da Indústria de Cimento (SNIC), as vendas de cimento em dezembro somaram 4,9 milhões de toneladas, um aumento de 4,7% em relação ao mesmo mês de 2024.

Com esse resultado, o setor encerrou 2025 com um total de 67 milhões de toneladas comercializadas, acumulando uma alta de 3,7% em 2025 — o que representa 2,4 milhões de toneladas a mais sobre o ano anterior.

O balanço também revela que todas as regiões apresentaram crescimento anual acumulado, com liderança do Nordeste (7,2%), seguido por Norte (4,0%), Sul (3,1%), Sudeste (2,7%) e Centro-Oeste (1,9%).

"O desempenho corrobora a trajetória de expansão, embora o volume total ainda permaneça distante do recorde histórico de 2014, de 73 milhões de toneladas", afirma o texto do balanço enviado à imprensa.

Desaceleração e desafios

Apesar do clima positivo, o setor deve começar 2026 com um ritmo mais lento de crescimento. O PIB do setor, projetado para 1,8% em 2025, ficou abaixo da estimativa anterior, que era de 2,2%. Foi o segundo corte no ano, que começou com expectativa de alta de 3%. Vale lembrar que, em 2024, o setor encerrou com alta de 4,3% no PIB.

Segundo Ana Maria Castelo, coordenadora de projetos da construção do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ibre), o principal motivo da revisão é a queda no consumo de materiais de construção pelas famílias.

“Juros elevados, renda comprimida e endividamento frearam reformas e pequenas obras, impactando diretamente o setor. Até setembro, apenas 47% da demanda por materiais veio do segmento familiar. Com isso, o crescimento de 1,8% do PIB da construção será puxado pelas construtoras", explica.

A escassez de mão de obra qualificada também segue como maior entrave, de acordo com o Sondagem da Construção. O mercado de trabalho atingiu pleno emprego em 2025, e o custo com pessoal deve fechar o ano com alta próxima de 10% - pressão que pode comprometer o crescimento se não houver resposta estrutural.

O presidente do Sinduscon-SP, Yorki Estefan, afirmou que a construção demandará uma mão de obra mais especializada e cara. Para ele, o Programa Reforma Casa Brasil vai competir com as construtoras, por absorver mão de obra informal.

Felipe Boaventura, vice-presidente de política, relações trabalhistas e recursos humanos do Sindicato da Indústria da Construção Civil de Minas Gerais (Sinduscon-MG), afirma que levantamentos internos indicam a escassez de mão de obra como o principal desafio do segmento. “O problema é reportado por mais de 90% das empresas”, afirma.

Até 2030, o Brasil poderá ter um déficit de um milhão de engenheiros para atuar em obras ligadas a programas governamentais, como o MCMV. O cálculo é do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) e a estimativa é feita a partir de um cenário de queda, nos últimos dez anos, do número de estudantes que concluíram a graduação em alguma área da engenharia no país, segundo o Censo da Educação Superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).


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