Antigo endereço da moda feminina de alto padrão no Centro do Rio, o Shopping Vertical entrou definitivamente na rota da reconversão imobiliária que vem redesenhando a região. O edifício de 13 andares, na Rua Sete de Setembro, a poucos metros da Carioca e da Praça XV, será convertido em empreendimento residencial pelas construtoras Montserrat e Calçada. Ele tem cerca de 7.000m2.
O projeto prevê a criação de 182 unidades do tipo studio, com metragens a partir de 24 metros quadrados. As moradias ocuparão todos os pavimentos, com exceção do térreo, que manterá uso comercial com duas lojas. A proposta segue a tendência de ocupação mista e busca aproveitar a localização estratégica do prédio, em uma área com ampla oferta de transporte e serviços.
Construído na década de 1950, o edifício foi idealizado pelos irmãos Emmanuel Bloch e David Bloch, que migraram da França para o Brasil durante a Segunda Guerra Mundial. Antes de se tornar um Shopping, era um edifício de escritórios, que com a crise dos anos 90, foi convertido em um inovador polo de moda que foi a gênese de diversas marcas hoje muito conhecidas do mercado do vestuário. O sucesso era improvável mas como na época o valor de locação de uma loja de rua na região era altíssimo, alugar uma sala era uma alternativa para marcas iniciantes. As clientes subiam de elevador mas desciam de escadas convencionais. O empreendimento rapidamente se consolidou como um polo voltado ao público feminino, reunindo lojas de grife e atraindo, sobretudo, trabalhadoras do Centro nas décadas seguintes, especialmente no início dos anos 2000.
A partir dos últimos dez anos, no entanto, o edifício começou a perder fôlego. O esvaziamento do Centro, agravado pela pandemia, reduziu significativamente a ocupação comercial e levou o prédio a buscar um perfil mais corporativo, sem conseguir reverter a vacância. “Nos tempos de ouro, o térreo, ocupado pela loja flagship da Nike, dava mais de 140 mil de aluguel. Uma loja nos andares superiores pagava 1/10 disso. Hoje, com 12 mil reais você consegue alugar uma loja de 100m2 no térreo de uma rua média no Centro. Isso acabou tirando do empreendimento sua atratividade; veja-se por exemplo o Shopping Paço do Ouvidor, seu maior concorrente de outrora: uma loja de 40m2 lá hoje tem um custo mensal de cerca de apenas 6.000 reais”, explica Lúcio Pinheiro, da Sérgio Castro Imóveis. Pinheiro comenta que o prédio estava à venda por cerca de 15 milhões.
Centro em transição
A conversão do Shopping Vertical se insere em um movimento mais amplo de transformação urbana na região central. Impulsionado por políticas públicas como o Reviver Centro, o bairro vem registrando uma mudança gradual de vocação, com incentivo à moradia e reocupação de imóveis ociosos.
A região do Vertical está dentre as que tem mais projetos em andamento: mais especificamente no eixo da rua da Quitanda. No Buraco do Lume, um controverso projeto de 700 unidades foi aprovado pela Novolar, sob uma chuva de críticas de arquitetos, especialistas e urbanistas, a 2 quarteirões do Vertical. A um quarteirão, a Canopus deve lançar – no local da antiga C&A – depois Renner e Leader – mais cerca de 300 unidades. A poucos metros dali, no terreno abandonado há décadas pela derrocada da Construtora Veplan, a Prefeitura está em vias de desapropriar o terreno de mais de 2.000m2 onde funciona um horroroso estacionamento, para vendê-lo em hasta pública. O potencial é de mais de 700 unidades.
Entre 2021 e 2025, foram autorizadas 7.334 unidades residenciais e 80 não residenciais na região. A estratégia mira aumentar a presença de moradores, estimular o comércio de rua e reduzir a dependência do fluxo pendular de trabalhadores, que historicamente esvazia o Centro fora do horário comercial.