O mercado imobiliário brasileiro anda em duas velocidades. No segundo trimestre de 2026, o Minha Casa, Minha Vida respondeu por 58% dos lançamentos do país, o maior patamar da série histórica iniciada em 2019, segundo a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) e a Brain Inteligência Estratégica: 62 mil das 107 mil unidades lançadas.
No mesmo período, o apartamento de classe média, que já foi o carro-chefe das incorporadoras, encolheu ao pior nível já registrado. O retrato é do Cimi Invest, do Congresso Internacional do Mercado Imobiliário.
O programa financiou 482 mil imóveis neste ano, segundo o Ministério das Cidades, depois de mais de 4,4 milhões entre 2016 e 2025, que somaram R$ 572 bilhões. Em São Paulo, 73,9% das unidades lançadas no primeiro trimestre se enquadravam no Minha Casa, Minha Vida, recorde histórico. As vendas de imóveis novos no país cresceram 5,3% no segundo trimestre na comparação anual, mesmo com a Selic elevada.
Os imóveis de R$ 500 mil a R$ 2 milhões, que já chegaram a mais da metade das vendas do país, hoje respondem por 18,9% dos lançamentos e 24,1% das vendas nas capitais, após quatro anos seguidos de queda, segundo a Brain. Em São Paulo, o médio padrão caiu de 32,8% dos apartamentos lançados em 2021 para 12,7% no último trimestre, o pior momento em 20 anos.
A conta não fecha por obra cara e juro alto. Os custos de construção subiram acima da inflação e o preço médio dos imóveis avançou 16% nas principais capitais em um ano, segundo a Abecip, enquanto o financiamento segue entre 12% e 14% ao ano, mesmo com a liberação de recursos da poupança. A Setin deixou de lançar na faixa de R$ 600 mil a R$ 800 mil em São Paulo, e a Moura Dubeux reduziu a cerca de 20% dos negócios sua linha de R$ 500 mil a R$ 1 milhão no Nordeste.
O tamanho e a previsibilidade do programa também abriram espaço para uma nova geração de incorporadoras. A Holos, fundada em 2021 já voltada ao Minha Casa, Minha Vida, projeta R$ 500 milhões em lançamentos neste ano, e a Canopus, R$ 2,43 bilhões. Nomes tradicionais do médio e alto padrão também migraram: a Cyrela criou a Vivaz, marca voltada ao segmento econômico. O FGTS, que financiou cerca de R$ 138 bilhões em 2025, 43% do crédito imobiliário do país, segundo a Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), já opera perto do limite de captação, na leitura do Cimi Invest.
A demanda, porém, não sumiu: 52% das famílias pretendem comprar um imóvel nos próximos 24 meses, o maior nível da série, segundo a CBIC, e as concessões do SBPE somaram R$ 93,7 bilhões no primeiro semestre, alta de 29%.
Mercado imobiliário desafia juros altos e cresceu 5,4% no primeiro semestre
Mesmo com os juros elevados, o mercado imobiliário brasileiro manteve crescimento no primeiro semestre de 2026. Entre janeiro e junho, foram comercializadas 226.536 unidades residenciais novas, alta de 5,4% em relação ao mesmo período de 2025, segundo os Indicadores Imobiliários Nacionais da CBIC. O resultado ocorre em meio à expansão do crédito habitacional, com diferentes fontes de recursos sustentando a demanda.
O financiamento pelo Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) destinado à aquisição de imóveis chegou a R$ 67,2 bilhões, alta de 12% no primeiro semestre. Considerando aquisição e construção, o volume alcançou R$ 93,7 bilhões, crescimento de 29%.
O movimento também foi impulsionado pelos recursos do FGTS. Segundo a Abecip, o crédito imobiliário total somou R$ 180,9 bilhões no primeiro semestre, alta de 23%. As concessões com recursos do FGTS, principalmente por meio do Minha Casa, Minha Vida, avançaram 22%, acima dos 12% registrados pelo SBPE na aquisição de imóveis.
A combinação entre o crescimento das vendas e a expansão das concessões indica que a demanda por imóveis permanece relevante mesmo diante dos juros elevados. Para quem pretende financiar, o cenário mostra que adiar a decisão apenas à espera de uma Selic menor também tem um custo, já que o aumento futuro da procura pode elevar os preços dos imóveis.